Estudo mostra o mecanismo do vício da cocaína

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Publicado sexta-feira, 11 de abril de 2003 as 11:15, por: cdb

Usuários de cocaína podem receber estímulo cerebral semelhante ao do consumo da droga mesmo antes de usá-la, aponta um novo estudo feito com ratos na Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Os pesquisadores registraram um aumento na presença de dopamina – um neurotransmissor associado ao prazer – imediatamente antes do momento em que os roedores estavam acostumados a receber doses de cocaína.

A dopamina atinge níveis elevados em atividades relacionadas ao prazer, como uso de drogas, sexo e paladar. O experimento, porém, é o primeiro a demonstrar esse aumento antes do ato. Pesquisadores acreditam que isso pode ajudar a entender por que viciados em drogas recuperados sofrem recaídas.

“Qualquer pista sobre a condição dos viciados pode ser importante para determinar a causa de uma possível recaída”, afirma Regina Carelli, integrante da equipe de pesquisadores. Ela explica que o cérebro dos ratos sofreu dois picos de dopamina: um no horário determinado e outro, ainda maior, quando recebeu estímulo audiovisual relacionado à droga. “A dopamina pode ser o ‘ovo’ e a ‘galinha’ sobre o comportamento de viciados”, afirma David Self, da Universidade do Texas. “Terapias que evitem as alterações de dopamina poderiam se tornar eficazes contra o vício.”

No Brasil, muitos especialistas vêem nesse estudo a possibilidade de novos tratamentos – e até mesmo da cura da dependência. “Já trabalhamos com essa teoria há muitos anos, e a pesquisa reforça a idéia de que as recaídas acontecem por questões biológicas”, diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeiras, especialista em tratamento de viciados. “As pessoas acreditam que os drogados não largam o vício por fraqueza, mas o estudo comprova que o problema é mais complexo.”

Segundo ele, o cérebro dos viciados fica condicionado a receber cocaína. “É a mesma coisa com comida, cigarro ou bebida alcoólica. O cérebro já está de prontidão antes mesmo da pessoa ingerir a substância”, diz ele. “Os tratamentos mais modernos se baseiam nessa idéia. É preciso muita conversa para que o paciente perceba esses estímulos do cérebro e não tenha uma recaída.”

Laranjeiras também afirma que o estudo inicia uma corrida pela cura da dependência química. “A busca por um remédio está acontecendo, mas ainda está longe de chegar ao fim”, diz. “A dopamina é apenas um dos agentes que causam a recaída. Deve haver centenas de outros neurotransmissores que atuam no cérebro dos viciados. Mas a cura é apenas uma questão de tempo.”