ESTREIA-“Espelho, Espelho Meu” faz releitura de Branca de Neve

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 5 de abril de 2012 as 12:08, por: cdb
cinema
Cena de "Espelho, Espelho Meu" com Julia Roberts (Rainha Má) e Lilly Collins (Branca de Neve)

Shrek, aquele grande ogro verde que tanto divertiu o mundo em 2001, também fez um grande desserviço à humanidade – e não se trata apenas de suas inúmeras continuações ou de seus derivados (alguém se lembra do Gato de Botas?), mas de todos aqueles que sofreram ou ainda sofrerão a sua influência: Deu a Louca na Chapeuzinho, e continuação, Enrolados, A Garota da Capa Vermelha, entre outros.

Como a lista não para de crescer, a nova vítima é Branca de Neve, que é Shrek-rizada em Espelho, Espelho Meu, que estreia em circuito nacional em cópias dubladas e legendadas. Ainda neste ano, estreará uma versão mais sombria da fábula, Branca de Neve e o Caçador, com Kirsten Dunst no papel principal.

Desde que o ogro sacudiu o Reino Encantado dos contos de fada, nenhum “Era uma vez…” consegue ser o mesmo. Agora, além de referências pop, é preciso um humor ácido e uma subversão light à história. Pode ser até culpa de Katniss Everdeen, a guerreira de Jogos Vorazes, mas a nova Branca de Neve (Lily Collins, de Um Sonho Possível) não tem quase nada das velhas histórias dos irmãos Grimm. Donzela, sim; mas indefesa, não, senhor. Para garantir o seu Felizes para sempre, ela aprende a manejar uma espada e vai à luta.

Até a madrasta-bruxa-má que atende pelo nome de Rainha (Julia Roberts, estranhamente confortável no papel) ganha uma nova leitura, na falta de melhor palavra. Mais do que odiar a beleza nívea de Branca, ela também quer seduzir o jovem Príncipe (Armie Hammer, de J. Edgard), que além de belo é rico, e poderá manter os gastos da vilã. Nem os sete anões ficaram intactos e se transformam num verdadeiro catálogo étnico da nova Hollywood, querendo agradar a gregos, troianos, asiáticos e latinos.

A trama do filme segue mais ou menos os passos do original, adaptando aqui e ali o perfil dos novos personagens. A Rainha não faz apenas perguntas ao espelho, ela entra no objeto onde se encontra com uma espécie de alter-ego/consciência. Os velhos elementos que são familiares parecem nunca encontrar uma sintonia com as novidades propostas por essa versão da história. Tudo fica meio desencontrado, com um humor canhestro que pende para o pastelão.

O diretor indiano Tarsem Singh (de A Cela e o recente Imortais, em que releu mitos gregos com mais licenças poéticas’ do que qualquer Fúria de Titãs) é dado a exageros visuais. Por isso, direção de arte e figurinos são criativos e coloridos e funcionariam muito bem num baile de carnaval ou numa vitrine de uma loja moderninha. Neste filme, Singh tem dificuldade em conjugar elementos e transformar o apelo visual em parte da narrativa e não como uma desculpa excêntrica para cada cena.

Mesmo ao tentar trazer algum frescor à velha história, Singh e seu time de roteiristas acabam sempre voltando às origens da Branca de Neve. Um filme não é feito apenas de visual criativo, ainda mais este Espelho, Espelho Meu que pretende subverter o tradicional. É esforçado, mas não consegue surpreender porque, na verdade, não há muito como fugir da história que todo mundo conhece – nem quando se coloca uma dança bollywoodiana nos créditos finais.