Esquerda passa a liderar Partido Trabalhista inglês

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Publicado sábado, 12 de setembro de 2015 as 18:34, por: cdb

Por Redação, com agências internacionais – de Londres:

O deputado de esquerda Jeremy Corbyn venceu com mais de 50% dos votos e quer construir uma legenda “mais inclusiva, mais envolvida e mais democrática”. No dia anterior Jeremy Corbyn agradeceu aos seus partidários:

– Foi uma campanha inspiradora, que aproxima as pessoas e proporciona uma alternativa.

Corbyn admira a obra do economista alemão Karl Marx
Corbyn admira a obra do economista alemão Karl Marx

Corbyn, de 66 anos de idade, tem sido amplamente referido como um dos membros mais “rebeldes” do Partido Trabalhista no Parlamento. Em 1984, Corbyn foi preso fora da embaixada sul-africana por violar uma proibição de protesto durante os tempos do apartheid.

Ele havia votado contra a participação da Grã-Bretanha na guerra do Iraque e criticou o ex-líder trabalhista Miliband por causa da austeridade.

O partido obteve apenas 232 assentos dos 650 assentos da câmara baixa do parlamento britânico, na eleição geral de 7 de Maio, tendo os conservadores ganho 331 assentos e garantido um governo de maioria. A corrida pela liderança no Partido Trabalhista havia começado a 14 de agosto e culmina agora com a eleição de Jeremy Corbyn.

Grisalho

Socialista e admirador de Karl Marx, Jeremy Corbyn obteve um resultado que pode deixar a saída da Grã-Bretanha da União Europeia mais provável e que, de acordo com algumas lideranças, deixaria o partido inelegível. Corbyn teve 59,5% dos votos pela liderança, vencendo no primeiro turno. Quando o resultado foi anunciado, ele foi ovacionado e abraçado até por rivais.

Com cabelos grisalhos e barba, Corbyn, de 66 anos, que recebeu apoio apenas para entrar na disputa e nunca esperava vencer, derrotou dois ex-ministros trabalhistas, Yvette Cooper e Andy Burnham, além de Liz Kendall, considerada próxima do ex-primeiro-ministro Tony Blair.

Corbyn, um esquerdista e veterano congressista, com uma longa história de votar contra o seu próprio partido, triunfou baseado em uma plataforma que promete, entre outras coisas, o aumento de investimento do governo por meio da emissão de papel moeda.

– As coisas podem mudar e mudaram – afirmou Corper ao conhecer o resultado da eleição. Ele fez uma campanha surpreendente no Reino Unido já que há cem dias, casas de apostas consideravam que sua chance de vitória era de 200 para 1.

O deputado, desde 1983, é parte do Parlamento britânico:

– Cresceu enormemente com pessoas que pedem um Reino Unido mais justo. (…) Não soubemos compreender as visões de muita gente jovem que tachamos de geração apolítica. Não era, era uma geração muito política, mas desencantada com a forma como vem sendo feita a política – disse em referência ao crescimento no número de votantes e ao perfil do eleitorado.

Isso porque a base do Partido Trabalhista praticamente dobrou, já que puderam votar não só os membros do partido, mas também simpatizantes. Dos novos votantes, 90% optou por Corbyn.

Establishment

Para o secretário-geral do sindicato Unite, Len McCluskey, “o establishment britânico foi sacudido até a medula, incluindo o trabalhista. Muitos apontam o apoio do Unite como fundamental para a vitória de Corbyn: “pela primeira vez se colocou na agenda uma alternativa real à austeridade, às políticas neoliberais. É um discurso que os jovens nunca escutaram”.

As posições de Corbyn no entanto já começam a repercutir no governo britânico. Ao site russo Sputnik Novosti, o ministro de Defesa, Michael Fallon, afirmou que o “trabalhismo é agora um risco grave para a segurança de nossa nação, a segurança de nossa economia e a segurança de todas as famílias”. Isso porque Corbyn é contra os mísseis atômicos e comprometido com o desarmamento nuclear.
Políticas progressistas

Corbyn promete lutar contra a desigualdade social, contra os planos de austeridade e desmandos do sistema financeiro. Ele é um conhecido militante pacifista, anti-nuclear e antiintervenções militares sem licença da ONU e defende a diminuição do controle nas fronteiras.

No âmbito econômico, defende mais impostos para os ricos e a nacionalização das estradas de ferro britânicas. Na política internacional, considera a conveniência de sair da Otan (Aliança do Tratado Atlântico Norte) e se opõe aos bombardeios contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

Por suas posições, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, divulgou uma carta, neste sábado, na qual o felicita: “hoje triunfou a esperança”, diz.

De acordo com a mandatária, “Jeremy Corbyn é o grande amigo da América Latina e divide nossa reivindicação de igualdade e soberania política”. Ela destacou ainda a posição do líder com relação às ilhas Malvinas ao dizer que ele “acompanha ativamente o chamado da comunidade internacional a favor do diálogo entre o Reino Unido e a Argentina com relação às Malvinas”.

Racha no partido

O principal desafio do novo líder será evitar o racha do partido já que apesar do grande apoio recebido da base, os parlamentares do Partido Trabalhista são maciçamente contrários a ele.

Nesse sentido, o novo líder prometeu fomentar um partido “inclusivo, democrático e que escute seus militantes” e se mostrou disposto a trabalhar com todos os setores da legenda.

No Parlamento, no entanto, um grupo de deputados também trabalhistas trabalham com a hipótese de que Corbyn “cairá pelo seu próprio peso” e estudam a melhor maneira de estar bem posicionado quando isso ocorrer, como aponta o jornal espanhol de direita El País.

Também há uma discussão sobre sua elegibilidade como primeiro-ministro do Reino Unido. Quanto a isso, considera-se que a prova mais importante para Corbyn será a eleição para a prefeitura de Londres, que será realizada no ano que vem. O candidato será Sadiq Kahn que, assim como Corbyn, está mais à esquerda que os demais trabalhistas que com ele concorriam.

Neste sentido, também será importante para Corbyn o resultado do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, consulta que deverá ocorrer antes de 2018. O trabalhista já afirmou que fará campanha pela permanência no bloco para criar “uma Europa melhor”.