Esperar ou fazer acontecer?

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Publicado sexta-feira, 12 de abril de 2002 as 11:25, por: cdb

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Mas será que quem espera sempre alcança, ou seria isso uma forma de fatalismo, a ‘desculpa dos acomodados’? Sim, porque, nesse caso, imagina-se que “o que tiver de ser, será” e, sendo assim, não se precisaria mover-se para se atingir os objetivos. Tudo viria por determinação divina. É o que chamam Destino, tal qual o fio da vida humana, tecido pelas parcas na mitologia grega. Mas aqueles que assim pensam acabam por desmerecer o livre arbítrio, ou mesmo aniquilá-lo, tornando-o totalmente dispensável, pois ‘se o que tiver de ser fatalmente e inevitavelmente o será’, obviamente que ‘aquilo que não tiver de ser, não o será’, não obstante os mais hercúleos esforços. Conseqüentemente, todas as batalhas, todas as lutas, tornar-se-iam descabidas e levariam apenas ao desgaste da energia vital. A bíblia a isso se refere, quando diz: “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam”, e ainda, “aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”.
Carl Gustav Jung, psicólogo suíço, mencionou certa vez que sua vida ‘foi a realização de seu inconsciente’, do ‘si-mesmo’. O inconsciente, o Eu mais profundo, teria, pois, a capacidade de se auto-realizar. Talvez isso seja o mesmo que “entregar nosso caminho a Deus” – pois, se existe um inconsciente, foi Deus quem o criou. Citando mais um exemplo, ainda na bíblia, lê-se: “entrega o teu caminho ao Senhor, confia nEle, e Ele tudo fará”. Esse contexto trata da inação, que se distingue, porém, da omissão. Quando uma ação faz-se necessária e não é executada, ocorre a omissão. Nesse caso, os que não lutam, não pensem que estão a salvo das responsabilidades, porque a omissão é igualmente uma ação, só que negativa, e precisa ser considerada. Os que se omitem são tão responsáveis quanto os que agem erroneamente, com a diferença que não são acusados pelo erro; no máximo, pela covardia. Mas há uns raros que se omitem por pura sabedoria, reconhecendo que em tudo há um momento, e há o tempo de agir, e o tempo de se omitir.
Por outro lado, no Existencialismo, Sartre defende que a inevitável condição humana é de sermos ‘condenados à liberdade’. Essa condição, mesmo em pequena escala – se considerarmos que nunca somos totalmente livres – gera em nós uma imensa responsabilidade sobre nossas vidas. Por isso foi tratada como uma ‘condenação’. Nós somos livres, e não temos escolha quanto a isso. É nessa liberdade que se encontram as razões daqueles que não se permitem esperar.
Com base nesse fundamento, há os que lutam incansavelmente, julgando que o resultado final sempre dependerá de sua intervenção; esses, mesmo julgando-se homens de fé, não conseguem simplesmente “entregar”. Precisam fazer algo por si mesmos.
E quanto àqueles que ‘fazem a hora e não esperam acontecer’? Será que realmente ‘sabem’? Não seria esta luta demasiada uma fraqueza do espírito? Acaso a verdadeira força não estaria naquele que consegue e ‘sabe’ esperar? Pois quem espera, mesmo não atingindo o objetivo desejado, alcança o domínio de si próprio, e quem aprendeu a dominar-se já está na paz, e isso é afinal o que todos buscam. Essa questão é essencial, porque antes de se fazer algo, faz-se mister ter sabedoria para agir. Não adianta atuar de qualquer maneira.
É fato, há os que não conseguem esperar tempo algum, e saem ‘des-esperada-mente’ em busca de seus ideais, o que às vezes os leva a tropeçar logo no início, e com o tropeço vem a desistência. Há os que tropeçam muitas vezes, mas não desistem nunca, não se acomodam e lutam obstinadamente, e ficam sempre ‘dando um jeitinho’, ‘mexendo os pauzinhos’… E acabam conseguindo um bocadinho de coisas com isso, embora de algumas se arrependam, às vezes sem ter como remediar. Ainda, há os que sempre esperam, e nunca arriscam e, se nada ganham, também não se culpam pelo que perderam. São os verdadeiramente acomodados. Finalmente, há aqueles – gloriosos! – que sabem, ao mesmo tempo, esperar e reconhecer o momento de fazer acontecer,