Escavação em vala comum revela 230 corpos na Bósnia

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Publicado terça-feira, 26 de agosto de 2003 as 16:19, por: cdb

Legistas disseram nesta terça-feira que já exumaram de uma vala comum os restos de quase 230 muçulmanos mortos no começo da guerra de independência da Bósnia (1992-1995). Segundo eles, centenas de outros corpos ainda podem ser encontrados.

Documentos recolhidos na vala comum de Crni Vrh (pico negro) mostraram que as vítimas eram muçulmanos que desapareceram nas mãos de soldados e guerrilheiros sérvios, que se opunham à independência e na época capturaram várias cidades do leste da Bósnia.

Cerca de 200 mil pessoas morreram naquele conflito, que também envolveu muçulmanos e croatas (ora como aliados, ora como inimigos). Milhares foram vítimas de atos de limpeza étnica quando cidades e aldeias eram ocupadas.

— Estamos na quinta semana (de escavações) e por enquanto temos 177 corpos completos e 50 incompletos — disse Murat Hurtic, chefe da equipe forense da Comissão de Pessoas Desaparecidas, ligada aos muçulmanos da Bósnia.

Ele disse que testes revelaram a presença de mais corpos abaixo do nível de três metros de profundidade que está sendo atualmente explorado. A vala comum fica em uma zona montanhosa e coberta de mata, junto a uma estrada. Ela está localizada na atual República Sérvia da Bósnia, perto da cidade de Zvornik (nordeste do país).

— A esta altura não sabemos quantos corpos estão lá embaixo e se foram enterrados juntos com os já encontrados. Podem ser centenas, mas posso afirmar com segurança que são pelo menos cem — disse Hurtic à Reuters no local.

A legista de origem polonesa Eva Klonowski disse que Crni Vrh é uma vala comum “secundária”, ou seja, que abriga corpos antes enterrados em outros lugares. A maior vala comum “primária” já achada na Bósnia foi a de Glumina, onde havia 274 cadáveres envoltos em sacos plásticos do Exército da ex-Iugoslávia.

A maior vala “secundária” era a de Kamenica, onde 500 restos mortais foram colocados pelos sérvios na tentativa de ocultar seus crimes. Com base em depoimentos e outra fontes, a comissão espera encontrar em Crni Vrh os corpos de pessoas mortas na região em 1992 e das vítimas do massacre de Srebrenica, ocorrido em 1995.

— Até agora, temos documentos de pessoas que desapareceram em Zvornik, Bratunac e Vlasenica em 1992 — afirmou Hurtic.

Com ajuda de especialistas da ONU, a equipe bósnia vasculha cuidadosamente a terra e os restos de roupas e sapatos na vala comum, que mede 35 metros por quatro.

— Muitos ossos e crânios foram danificados por balas, o que significa que as vítimas provavelmente foram executadas — observou Klonowski.

Sinan Hrustic, um muçulmano de 24 anos que recentemente voltou a viver na vizinha aldeia de Klise, de onde fugiu com a família em meados de 1992, acompanha a exumação na esperança de encontrar os corpos de seu pai e de um irmão.

— Eles estavam entre os cerca de 150 desaparecidos da nossa aldeia e dos cerca de 750 da região — contou Hrustic, enquanto sua sogra, em trajes tradicionais muçulmanos, olhava para a vala e chorava.

— Ela perdeu 18 parentes homens. É realmente duro para ela — afirmou Hrustic. Dos 28.500 desaparecidos da Guerra da Bósnia, a maior parte muçulmanos, os restos de 16.500 já foram achados. Desse total, 11.500 corpos foram identificados.