Era o maior jornalista, quem?

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Publicado sexta-feira, 20 de novembro de 2015 as 15:00, por: cdb

Por Appólo Natali, de São Paulo:

Um juornalista baiano é, até hoje, considerado exemplo de independência dentro da profissão
Um juornalista baiano é, até hoje, considerado exemplo de independência dentro da profissão

Tanto ele como seu implacável perseguidor, D. Pedro I, morreram em 1838, um aqui, outro na Europa.

Ao final da vida tormentosa dos dois, se D.Pedro I tivesse alguma coisa ainda a dizer, diria: dominei-o com 11 anos de masmorras e uma prisão perpétua. Foi assim: no tempo em que era crime não se ajoelhar e beijar as mãos do imperador, o baiano virou-lhe as costas durante sua visita à masmorra, o que lhe valeu a pena de prisão perpétua. O baiano defendia o fim da tortura praticada por bagatela pelos dominadores e exigia a abolição de seus instrumentos.E se tivesse ainda alguma coisa a dizer, o que diria o baiano? Eu o derrubei do trono, tirano – chamava-o de tirano – depois da minha libertação fui à Bahia como emissário da conjura pela Abdicação.

Uma das primeiras lideranças políticas de amplitude nacional que se forjou no imediato período pré e pós-Independência, ele foi, na Colônia, no Império e na Regência, temido, prestigiado e perseguido líder, incansável e intransigente combatente da opressão lusitana. Incendiou a Bahia com a guerra de guerrilha para expulsar os portugueses da Província, então dominada pelas forças do brutal general Madeira. Foi ativista e participante de históricas revoltas regionais que se espalharam pelo Brasil contra a tirania portuguesa, durante a Colônia, Império e Regência.

Proclamava-se um liberal que açoita a tirania e defende a pátria. Sempre acusado de pregar a Republica. Há 200 anos defendia eleições diretas para os presidentes das províncias. A abolição dos escravos, que aconteceu em 1888, ele a queria para 1860. Um dos fundadores do jornalismo político no Brasil. Deputado pelo Brasil nas Cortes, em Lisboa, sustentou com valentia verbal e física a causa da liberdade. Atracou-se e derrubou um marechal português no plenário durante defesa que fazia dos interesses brasileiros e do direito de cidadania dos escravos. O Marechal rolou pelas escadas. Fugiu para a Inglaterra. Lá, seus feitos eram publicados no Correio Brasiliense pelo jornalista Hipólito da Costa.

O baiano indignou-se com a afirmação do padre Diogo Feijó, Regente de um governo forte e centralizador, de que o brasileiro não foi feito para a desordem, que o seu natural é o da tranquilidade. E perguntou que coisa seja docilidade brasileira, de que falou também dois séculos depois o historiador Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil. Esse termo docilidade aplicado aos brasileiros, disse o baiano, é como dizer brasileiro ovelha mansa, que trabalha como burro para pagar tributos em benefício dos satélites do governo. Era médico.

E jornalista. Seu jornalismo era dirigido para sua intransigente luta contra o domínio português, pela liberdade, em favor de sua gente do Brasil, pobres, oprimidos, negros, índios, mulatos, mestiços, mamelucos. Aquele baiano era o tipo do ser cheio de energia que não se dobra a nenhuma espécie de cativeiro ou exercício de domínio sobre as pessoas. Somos todos brasileiros, dizia, e formamos um só corpo e povo de irmãos livres.
Em meio aos ferros de tortura e insetos peçonhentos, nas várias masmorras inundadas, fétidas, sem ar e calor abrazador onde era aprisionado, o baiano editava seus jornais e distribuía para todo o Brasil. Dizem que com a ajuda de sociedades secretas que almejavam a Independência. Sentinela da Liberdade era o título de seu jornal, com o nome do Forte ou masmorra onde estava preso e o brado: Alerta!

Em 9 de abril de 1823, uma quarta-feira, nasceu o número 1, Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco, Alerta! O último Sentinela, do total de 66 exemplares que editou, saiu em dezembro de 1835, em Recife. Foram doze anos do denominado jornalismo do cárcere, como é conhecida sua atuação como jornalista. O médico Bezerra de Menezes, nome sempre citado pelos espíritas hoje, dirigiu um Sentinela da Liberdade, no Rio de Janeiro. Exilados publicaram em 1825, na Inglaterra, o Sentinela da Liberdade na Guarita de Londres, como suplemento do Sunday Time.

De estilo doutrinário, panfletário, Sentinela da Liberdade era também noticioso e satírico, em linguagem simples, direta, acessível. Trazia notícias internacionais da França, Inglaterra, Espanha, Portugal, da Santa Aliança – união de reinados na Europa para manter o absolutismo – das Américas, com destaque para México, Argentina, Peru e Paraguai, além de notícias nacionais das províncias e locais, com referências a roubos, carestia, hospitais sem aparelhagem. Um amplo painel do cotidiano.

Como chegavam à sua redação nas masmorras todas essas informações, numa época de tão precárias comunicações? No editorial dizia a que veio o jornal: clarear ideias, dar luzes aos leitores, combater erros, lembrar o bem público, repreender os abusos do poder e de seus empregados e atirar flechas ervadas contra os servis aristocratas. Nunca perdoar o despotismo e a tirania. Não receberei anúncios sobre venda de escravos porque minha gazeta não é leilão nem capitão do mato.

O historiador Pedro Calmon o vê como um dos grandes seres que passaram pela Terra. Disse dele o historiador Nelson Werneck Sodré, que poucos fizeram tanto pela nossa Independência quanto esse baiano que, ainda no Brasil Colônia, já conheceria as amarguras do cárcere por sonhar com nossa liberdade política. Sentinela da Liberdade foi uma epopéia da imprensa brasileira, um dos momentos supremos da vida da imprensa brasileira, um dos marcos na luta pela nossa liberdade, diz Sodré. Temido pelos déspotas, áulicos e ditadores, fez tremer os inimigos da liberdade e da democracia, diz o historiador.

A imprensa é a deusa tutelar da espécie humana, exultava-se o baiano. Considerava-se idólatra da liberdade. E poetou: Ainda mesmo de pulsos arrochados, desafio desgraças sanguinosas, mordo os ferros, altivo ranjo os dentes, desafio o tirano mais potente. Quem queria evitar ser molestado pelos dominadores usava um distintivo com o desenho de uma barata. Os ricos, distintivo de ouro. Os medianos, de prata. Os pobres, de bronze. Para intimidar os dominadores daquele Brasil cativo, muitos escreviam nas portas de suas casas: Barata. Quem, além de Cypriano Jozé Barata de Almeida, era com “z” que se escrevia, pode ser considerado o maior jornalista brasileiro de todos os tempos? (Conferir Marco Morel em “Cipriano Barata na Sentinela da Liberdade, Ed. Assembléia Legislativa da Bahia-Academia de Letras da Bahia. E Paulo Garcia, em “A Liberdade Acima de Tudo”, Topbooks).

Apollo Natali foi o primeiro redator da antiga Agência Estado, foi redator da Rádio Eldorado, do Estadão e do antigo Jornal da Tarde. Escreve atualmete para diversos sites e blogs de notícia, como o Observatório da Imprensa.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista  Rui Martins.