Equador não declarará as FARC como terroristas

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Publicado segunda-feira, 10 de março de 2003 as 20:02, por: cdb

As três tempestuosas declarações da Embaixadora dos EUA, Kristie Kenney, já receberam uma primeira resposta da chanceler equatoriana Nina Pacari. A primeira declaração expressou a pretensão dos EUA, de envolver o Equador no conflito colombiano com a proteção da presença militar dos EUA na Base de Manta. A segunda declaração foi sobre o fechamento da fronteira ao norte que implicará numa crescente participação no conflito, permitindo o uso das Forças Armadas equatorianas como um escudo bélico; e a terceira é a sugestão de declarar às FARC-Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia- como terrorista.

Pacari advertiu que declarar as FARC como terroristas, acabaria com a possibilidade de uma saída pacífica ao conflito. “O Equador quer preservar seu papel de facilitador num eventual processo de diálogo”, disse.

O país acredita que ainda é possível encontrar uma saída negociável à crise colombiana. E foi isso que levou o Presidente Lucio Gutiérrez a oferecer-se como facilitador do diálogo entre as partes. A solução, destacou a chanceler, depende da Colômbia, “porque o problema é desse país”. O Equador cumprirá com o seu papel de bom vizinho.

As declarações de Pacari somam-se às do chanceler brasileiro Celso Amorim, que afirmou que seu país se negava a aceitar o pedido de Bogotá, para declarar às FARC como terrorista, por essa declaração impedir um diálogo de paz.

A petição do governo de Uribe, apoiada pelos EUA, está dirigida segundo Sandra Suárez, assessora presidencial para o Plano Colômbia, a ir atrás do dinheiro da guerrilha e para obter empréstimos dos organismos internacionais para saldar os custos da guerra, apesar de que, em quatro décadas, todas as pretensões de encontrar uma saída militar ao enfrentamento tem fracassado.

No contexto da política anti-terrorista do Presidente Bush, essa declaração abriria as portas para uma intromissão militar dos Estados Unidos na Colômbia e inclusive a uma ofensiva aberta, como a executada no Afeganistão, com a desculpa de uma guerra ao terrorismo, o qual constitui uma ameaça grave aos legítimos direitos de soberania e auto-determinação da Colômbia, de seus países vizinhos e da região em seu conjunto.

O pronunciamento equatoriano acontece quando Bogotá se dispõe a ser a sede da denominada “Cúpula regional anti-terrorista”, que terá início na próxima quarta-feira e que estão convocados os chanceleres e ministros da defesa dos países vizinhos: Venezuela, Equador, Brasil, Peru, Panamá, e Estados Unidos, localizado bastante longe da região. O objetivo do evento, segundo explicou um funcionário da chancelaria colombiana, “é coordenar um mecanismo de luta contra os narcotraficantes, as FARC e outros grupos violentos que estão atacando a sociedade colombiana e eventualmente podem trasladar suas ações terroristas aos países vizinhos”.

Dessa forma, pretende-se forçar aos países vizinhos a declarar uma guerra às FARC. Isso tornaria o conflito armado regional, exatamente quando o movimento guerrilheiro declarou que não tem nenhum interesse em estender suas ações militares além dos limites de seu país.

* Diretor do Jornal “El Sucre”.