Encruzilhada ambiental

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Publicado domingo, 28 de janeiro de 2007 as 12:31, por: cdb

As magníficas montanhas do cantão suíço de Grisons ainda estavam lá, só que, dessa vez, descobertas do manto de neve que costuma deixá-las todas brancas durante o mês de janeiro. A mensagem trazida por esse impacto visual talvez tenha valido mais do que muitas mesas de discussão para os endinheirados participantes que chegaram nos últimos dias a Davos para o Fórum Econômico Mundial. O recado da natureza não poderia ser mais apropriado, já que a questão das mudanças climáticas é um dos principais pontos de pauta dessa edição do tradicional fórum que reúne governantes, banqueiros e grandes empresários na normalmente pacata cidadezinha suíça.

O inverno europeu ter registrado este ano temperaturas elevadas como nunca se viu antes talvez seja uma das explicações para o fato de que a discussão sobre mudanças climáticas voltou à mesa dos grandes. Dias antes do Fórum de Davos, temas como o aquecimento global e a redução da emissão de carbono foram objetos de notícias na União Européia, com o anúncio do plano para reduzir as emissões em 20%, e nos Estados Unidos, com o discurso anual do presidente George W. Bush sobre o “estado da União” que, pela primeira vez, tratou de forma direta essas questões.

Paralelamente, no Brasil, o governo Lula lançou um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que busca, entre outras coisas, agilizar a concessão de licenciamentos ambientais e impulsionar investimentos em grandes projetos de infra-estrutura. Mas, ao mesmo tempo, o governo ainda não sinalizou qual caminho pretende seguir em sua política ambiental tanto no plano interno quanto no plano internacional, cenário no qual o Brasil vem desempenhando um papel de liderança nos últimos anos.

Os principais governantes do mundo parecem estar diante de uma encruzilhada ambiental e Brasil, Europa e Estados Unidos são personagens importantes desse drama. Mas, por qual caminho seguirá de fato cada um deles?

As esperanças mais justificadas parecem vir da Europa. Lá, sobretudo nos países mais ricos, é alto o nível de consciência da população quanto à problemática ambiental. Na Europa, ao contrário dos EUA, o cidadão médio sabe que a falta de neve, mais que um inconveniente para a prática de esqui nessas férias de inverno, é sintoma de um processo muito mais amplo e global. Para completar, ao lago que não congelou na Polônia, aos ursos que não hibernaram na Suíça e à neve que não caiu nos Alpes Italianos vieram juntar-se no alarmado imaginário dos europeus dois impactantes estudos sobre o aquecimento global.

O primeiro deles foi o Relatório Stern, encomendado pelo governo da Inglaterra e divulgado no fim do ano passado. Elaborado pelo ex-presidente do Banco Mundial, Nicholas Stern, o relatório procura quantificar economicamente as perdas que terão as nações nos próximos anos por conta do aquecimento provocado pela ação humana. O resultado não é nada animador: se medidas urgentes não forem tomadas, segundo ele, até 2050 os países estarão gastando 20% de suas riquezas apenas para combater os estragos físicos, sociais e econômicos causados pelo aquecimento global.

O segundo estudo é o relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês), que será divulgado oficialmente na próxima semana em Paris. Elaborado a partir do trabalho de mil e duzentos cientistas e especialistas de diversos países, o relatório sustenta que a probabilidade de que o acúmulo sem precedentes de dióxido de carbono e de outros gases causadores do efeito estufa na atmosfera esteja sendo causado pela ação do homem é de 90% a 99%. No último relatório divulgado pelo IPCC, em 2001, essa probabilidade era de 65% a 90%.

O agravamento da previsão se deve ao grande aumento da presença de carbono na atmosfera nos últimos anos. Antes da Revolução Industrial, a concentração média era de 280 partes por milhão, enquanto nesse início de século registra-se em algumas regiões do globo uma concentração d