Em palpos de aranha, ou a situação peculiar em que se encontra Sérgio Cabral

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Publicado domingo, 7 de fevereiro de 2010 as 14:42, por: cdb

O governador do Estado do Rio, Sérgio Cabral, está enredado em circunstâncias dignas de nota. Ao público, esse chamado “público em geral”, Cabral parece navegar em mares de almirante, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a lhe soprar pela popa e, à proa, nada senão carneirinhos. Passou até agora a colher frutos suculentos como as Olimpíadas de 2016, as obras do PAC e as viagens a Paris, sempre tão elegantes. No cenário político, vive dias de calor intenso, praias cheias, verão como poucas vezes se vê no Rio, ao contrário do adversário paulistano, atolado em inundações e enchentes até o pescoço. Mesmo a tragédia ocorrida em Angra dos Reis, no Réveillon, parece ter superado com rapidez maior junto à mídia do que o tempo que levou até chegar ao local do desastre.

Ocorre, no entanto, um fato curioso. Ano eleitoral, 2010 reserva nuanças que, politicamente, tramam pela derrota de Cabral nas urnas e o realinhamento das forças políticas fluminenses de forma a alterar o curso dos acontecimentos a partir de 3 de outubro. Os adversários de Cabral já estão a postos: Anthony Garotinho, pela esquerda, e Fernando Gabeira, pasmem, pela direita. Enquanto o ex-governador por quatro mandatos cobre bem o interior do Estado e parcela significativa da Baixada Fluminense, o deputado do PV, que surpreendeu nas eleições municipais, acessa com extrema desenvoltura o eleitorado da capital e parte da Baixada: Duque de Caxias, para ser mais exato.

Somada à conjunção Garotinho-Gabeira, o ex-prefeito do Rio, Cesar Maia – um sobrevivente político, graças à Zona Oeste do Rio – vem de faca entre os dentes na disputa por uma cadeira ao Senado, disposto a fazer o maior estrago possível nas hostes da situação e ampliar o desgaste do governo justo em sua principal trincheira na capital fluminense. Para contê-lo, caberá ao prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, a tentativa de elevação no nível dos debates, mas sem a convicção necessária para ocupar o posto de fiel escudeiro, posto seu relacionamento com o governador ter sido marcado até hoje por qualquer coisa, exceto flores. Novamente, as circunstâncias apontam para um Inverno sombrio no Palácio Guanabara.

Ao se ver forçado a lutar em duas frentes, Cabral conta com poderosos aliados na direita, tanto conservadora quanto liberal, sem dúvida alguma, pois não chegou onde está por ser um mau negociador junto a estes setores das sociedades carioca e fluminense. A sustentação do governo na esfera parlamentar aparenta solidez e, no campo econômico, goza de bom conceito junto ao empresariado. Isso, até agora. Com o início da campanha eleitoral, no entanto, os arranjos tendem a sofrer alterações substanciais à medida que se aproxima a Primavera nos trópicos. Os adversários do atual governador, no espectro capitalista da população, também são gente de peso e contam, em nível nacional, com tucanos e democratas de quatro costados. Se equilibrar a disputa apenas, sem vantagem alguma, Cabral já poderia ficar satisfeito.

Mas, na esquerda, a porca torce o rabo, como diriam os vizinhos mineiros que, por lá, têm tudo sob controle. Chamada a votar em peso na candidata de Lula, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, a base aliada no Estado do Rio foi liberada para votar como melhor lhe aprouver – durante recente encontro com o político campista. Dilma subirá tanto no palanque de Cabral, quanto no de Garotinho. Ainda que Lula não deixe dúvidas quanto a quem é o cisne na antiga Capital Federal, Dilma não pode se dar ao luxo de perder os votos do patinho feio que vem do interior.

As cenas que assistiremos a seguir, portanto, tendem a exibir situações explícitas de forte questionamento político. Recomenda-se, portanto, que se retirem as crianças da sala durante o Horário Eleitoral.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil.