Eleições no Brasil serão decididas no segundo turno

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Publicado segunda-feira, 7 de outubro de 2002 as 19:11, por: cdb

Lula, que esperava alcançar mais de 50% dos votos para vencer as eleições logo no primeiro turno, teve 46.4% dos votos, com 98.3% das urnas já apuradas. Lula, 56 anos, ex-metalúrgico e líder sindical, facilmente superou José Serra, candidato do PSDB, que recebeu 23.2% dos votos. Os dois outros candidatos – Anthony Garotinho e Ciro Gomes – atingiram 29%.

“Isso é que é democracia”, afirmou com entusiasmo Norma de Almeida Gomes, uma professora de 44 anos, ao deixar um local de votação em um bairro de classe média do Rio de Janeiro. “Eu ficarei acordada durante a noite se for necessário, e só dormirei até saber se eleição foi ou não decidida”.

Nas três tentativas anteriores para chegar à presidência, Lula jamais havia conquistado mais de um quarto dos votos no primeiro turno. Apesar de ter chegado ao segundo turno em sua primeira tentativa, em 1989, os eleitores sempre se mostraram suspeitos quanto à plataforma socialista de seu partido e questionavam suas qualificações para o cargo. Contudo, para esta campanha, Lula revitalizou sua imagem e seu programa de governo. Ele se afastou das ameaças anteriores de repudiar a dívida externa do Brasil e romper relações com as organizações internacionais de crédito, como o FMI, e preferiu enfatizar medidas que permitam ao maior país da América Latina ampliar exportações e gerar mais empregos e crescimento.

Serra, por sua vez, como o candidato de uma coalizão partidária que governou o país nos últimos oito anos, foi obrigado a enfrentar a insatisfação popular sobre o crescimento do desemprego e uma economia estagnada. Ele também foi seriamente enfraquecido pela desorganização no governo e por sua falta de carisma diante de Lula.

“Lula aprendeu com seus erros e aprendeu com o tempo, e eu acredito que ele está maduro o suficiente para ser nosso presidente e impor as mudanças que nós necessitamos”, afirmou Fábio Barcellos, um economista de 32 anos, após votar em Lula neste domingo. “As pessoas que vêm administrando este país não foram capazes de fazer com que a economia cresça, mas ele pode”.

Contudo, os investidores esclareceram que prefeririam Serra, ex-ministro do Planejamento e senador. Diante do crescimento de Lula nas pesquisas, a moeda nacional, o real, recuou acentuadamente contra o dólar, movimento impulsionado pelas preocupações sobre a crescente dívida externa do Brasil e os temores de que o aumento nos gastos públicos por um governo sob a liderança do PT cause renova inflação.

Neste domingo, a caminho da praia depois de votarem, vários profissionais discutiam suas escolhas e os prospectos do Brasil. Euclides Oliveira, um advogado de 54 anos, afirmou que havia votado em Lula pela primeira vez, porque acreditava que o país necessitava de uma nova direção.

“É bom para a democracia ter partidos diferentes se alternando no poder”, ele afirmou. “Aqui não é a Venezuela, e Lula não é Hugo Chávez. Ele vem se preparando há 20 anos e é a melhor escolha para o cargo”.

“Você deve estar brincando”, respondeu José Carvalho, um médico de 58 anos, que afirmou ter votado em Serra, em virtude de suas comprovadas capacidades administrativas. “Lula nunca administrou nada, nem mesmo sua cozinha. Então como ele vai administrar um país tão grande e complicado como este?”

O Brasil, que é maior que o território continental dos EUA, está utilizando um sistema de votação totalmente computadorizado, e alguns problemas técnicos causaram atrasos na apuração dos votos. Cerca de 400,000 urnas eletrônicas foram enviadas aos locais de votação em todo o país, e a comissão eleitoral nacional estimou que teria uma contagem completa depois de 12 horas do fim da votação.

A eleição presidencial deste domingo foi a quarta disputa desde o fim do governo militar em 1985. Além de escolherem seu chefe de estado para os próximos quatro anos, os 115 milhões de eleitores do país também estavam elegendo 54 membros, ou dois terços, do Senado e todos os 513 membros da Câmara de Deputados.

Ap