Eduardo Galeano diz que Brasil venceu o medo com eleição

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 28 de outubro de 2002 as 17:07, por: cdb

Escritor uruguaio, celebrizado por sua obra que expõe o estado de miséria, em As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano qualificou o triunfo do petista Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais brasileiras como uma vitória “contra o medo”.
“Os brasileiros nos deram um exemplo de coragem e de bom senso. Votaram contra o medo e pela mudança”, afirmou Galeano, referindo-se à instabilidade dos mercados que antecedeu as eleições e que levou o real a seu mais baixo valor.

“Os donos do poder universal, os donos da situação, referem-se a si mesmos como “o mercado” e a “comunidade internacional”. São seus nomes artísticos. Os brasileiros não se assustaram com as ameaças e especulações do mercado. O povo votou sem pedir licença”, declarou.

A vitória de Lula, um ex-metalúrgico e líder histórico do PT (Partido dos Trabalhadores), que obteve uma votação inédita para derrotar o governista José Serra, indica que “os pobres, os desfavorecidos (…) chegam ao governo sem intermediários e acompanhados por muitos que não são pobres nem desfavorecidos”, afirmou Galeano.

O escritor uruguaio, de 62 anos, aderiu desde jovem à esquerda de seu país, atualmente reunida na aliança Encontro Progressista – Frente Ampla, que aparece como favorita para as eleições de 2004.

Galeano sempre foi mais conhecido no exterior do que em seu próprio país, e suas principais obras, As Veias Abertas da América Latina, de 1971 e a trilogia Memórias do Fogo, de 1989, vendem como pão quente no continente latino-americano. Ambas cutucam as feridas da exploração dos povos indígenas latino-americanos e do “imperialismo” europeu e norte-americano como causas do subdesenvolvimento da região.

Para o escritor, a chegada de Lula ao governo da principal economia latino-americana deve ser entendida pelo avanço dos movimentos sociais como o dos sem-terra, no Brasil, e por outras experiências similares que se estão desenvolvendo na América Latina. “Em muitos lugares, as pessoas estão deixando a platéia e invadindo o campo. Em uma democracia, quando é verdadeira, o povo não assiste à partida, mas a joga”, disse.

Mas, apesar do poderio do Brasil, para mudar esse país que Galeano classifica como “o mais injusto do mundo”, Lula necessita de uma união latino-americana que deve deixar o terreno dos discursos políticos para tornar-se realidade, afirmou.

“O governo Lula vai depender muito de que a unidade latino-americana deixe de ser um projeto nebuloso e uma fonte de discursos ingênuos. Tomara que o exemplo brasileiro atue como catalisador dessa necessária união. Porque também o Brasil precisa dela”, ressaltou.

“O Brasil é um país enorme, importante, a décima economia do mundo etc. etc., mas nesses últimos anos vendeu muito de sua soberania a preço de banana, e agora está tão submetido à escravidão por dívidas como países pequenos que nem figuram nas estatísticas”, acrescentou.