É festa no país das desigualdades – Os megaeventos como instrumento de opressão

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Publicado segunda-feira, 30 de maio de 2011 as 03:11, por: cdb

Por Rafael Flores 30/05/2011 às 00:56

Colocando a prova as palavras trêmulas de um estudante de jornalismo – Esse texto foi originalmente escrito para o blog  http://meucarroevermelho.blogspot.com

Em véspera de sediarmos a Copa do Mundo e as Olímpiadas, proponho expandir nossa visão sobre o assunto. Expandir para além da impaciência quanto ao atraso nas obras que comportarão os dois megaeventos e do ?clima de paixão brasileira, oba-oba, tudo é festa?. Vomitarei aqui algumas questões que me incomodam e me instigam a necessidade de discussão. Lá vai:
Como é de praxe no modelo de sociedade que estamos inseridos, os interesses econômicos superam as necessidades da população de forma geral. No ponto em questão, isso se reflete em uma reorganização das cidades para que se adequem aos interesses de quem financia esses megaeventos esportivos.
A reforma nas cidades é materializada principalmente através de uma faxina social. Comunidades empobrecidas, que se localizam no meio do caminho escolhido para a realização das obras de infraestrutura, são despejadas com o aval do governo. Para a construção do Centro de Mídia e do Centro Olímpico de Treinamento, centenas de famílias da Vila Autódromo, Zona Oeste do Rio de Janeiro, serão despejadas do local. Os moradores resistem e afirmam que os eventos esportivos devem acontecer onde o povo está, o que deveria ser óbvio. ?Um juiz, em uma sentença desfavorável à população da área, afirmou que a comunidade causava ?dano estético? ao entorno?, comenta a advogada da Defensoria Pùblica do Estado do Rio de Janeiro, Adriana de Brito ? durante a 3ª Jornada pela Moradia Digna, a qual teve como tema o Impacto dos Megaprojetos e as Violações do Direito à Cidade e aconteceu em São Paulo.
Essa faxina social pode se estender ao tema debatido nessa mesma coluna há uns quinze dias atrás. A porca política antidrogas. A figura do traficante, estigmatizada pela mídia hegemônica e reproduzida pela opinião pública justifica essa política criminalizatória e dizimadora (com perdão dos neologismos). Isso levou a instalação nem um pouco pacífica das Unidades de Polícia Pacificadora na zona do sul do Rio de Janeiro, o que causou uma outra espécie de remoção. O custo de vida depois das UPP aumentou vertiginosamente, fazendo com que essa população de deslocasse para longe do burburinho esportivo. Esse modelo, já aderido por outras capitais brasileiras não seria mais uma tentativa de limpeza das favelas?
Além da reforma excludente nas cidades-sede, essa política se revela na iminência de expulsão de trabalhadores informais, na violência contra a população moradora de rua, na perseguição aos artistas de rua, etc. Tanto para o governo quanto para a iniciativa privada o prejudicial não é haver pessoas sem condições regulares de trabalho ou moradia, mas sim que esta situação seja visível. É possível se animar com eventos que se dão ao ‘luxo’ de maquiar a pobreza e incita a sua criminalização?
A tal da paixão nacional tem de ser respeitada, sim. Mas não através da criminalização dos apaixonados, enquanto pouco bolsos engordam com obras tão superfaturadas. Não nos convidaram para uma festa, cujas dívidas serão nossas e os lucros sabe-se lá de quem.

Fontes (acessadas em 29 de maio de 2011):
 http://www.enecos.org/legalizacao-das-drogas-uma-resposta-a-falencia-da-politica-proibicionista/
 http://www.pactopelacidadania.org.br/index.php/artigos/206-vila-autodromo-reafirma-vontade-de-ficar
 http://jornadamoradia.wordpress.com/2011/02/26/megaprojetos-e-a-criminalizacao-da-pobreza/

URL:: http://meucarroevermelho.blogspot.com/