E erro de notícia também não mata?

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 8 de janeiro de 2002 as 22:12, por: cdb

Assim, ó: no meu manual de redação (chama-se Da redação escolar ao texto, e a Editora da Universidade jura que publica ainda este ano), tem um texto escrito por uma aluna do curso de Tradutor, que tenta entender a profissão para a qual ela está se formando, uma profissão que (diferentemente da de jornalista) não foi regulamentada (ainda?). O texto tenta avaliar a importância da profissão de tradutor a partir de uma classificação das profissões como letais e não-letais. Sua especulação sobre a falta de regulamentação do trabalho do tradutor baseia-se na seguinte especulação: profissões que podem matar – tipicamente a medicina – são mais importantes e precisam ser regulamentadas; profissões que não matam não são tão importantes, não precisam ser regulamentadas.

Não sei se foi esse o argumento do juiz (juíza?) que sentenciou que a profissão de jornalista não precisa ser necessariamente exercida por profissionais diplomados em Jornalismo. Não sei se ter lido o tal despacho teria contribuído significativamente para o acúmulo de conhecimento a respeito do assunto: juízes e advogados dizem – para o nosso mal e para o nosso bem – qualquer coisa a serviço da persuasão. Não contam que Sobral Pinto usou a lei de proteção aos animais para conseguir algum refresco na cadeia para Luís Carlos Prestes? E alguém aí quer que tal procedimento precise ser empregado de novo? Pois é: produção nenhuma de conhecimento. Tudo bem: a questão não é essa mesmo.

A questão é esta: por que o dono de um determinado meio de produção vai achar que é melhor contratar um cara qualquer e não um profissional habilitado em curso superior? Por que donos de jornal e de tevês não gostam da regulamentação da profissão de jornalista? Por que gostariam de contratar ignorantes a respeito de jornalismo? E por que levam essa aspiração ao extremo de questionar nos tribunais a regulamentação da profissão de jornalista?

Sei de muito engenheiro daqui contratado por alguma Ford ou Citroen da vida que é levado pra matriz na Europa, nos Estados Unidos pra se qualificar, coisa do tal Primeiro Mundo, que tudo quanto é jornal e tevê daqui apresenta como exemplo de tudo o tempo todo. Seria esperar muito que eles fizessem pelo desenvolvimento do exercício do jornalismo no Brasil o que essa outra gente aí faz pelo da engenharia mecânica? Sei também que os jornais e tevês daqui gostam
de trazer gente da Espanha pra dar curso. Por quequeu sei? Porque eles alardeiam esses cursos o que podem, e como eles podem. E daí? Gente sem formação aproveitaria melhor esses cursos do que os alunos que nós formamos lá na Fabico, que a PUC forma na Famecos, que a Unisinos, a UPF, a Unisc etc?

O problema é a grana? Por acaso eles iam pagar muito menos pros coitados sem formação do que pagam pros caras que nós formamos? Claro que iam se pudessem, mas o salário que eles pagam eles também costumam alardear, pelo menos o que pagam só pra poder alardear que mantêm Fulano de Tal, Fulano de Tal e Fulano de Tal a peso de ouro nas páginas e telas dos seus veículos, alarde que rende eu não faço idéia de quantas vezes a soma dos salários de todos os alardeados.

“Os cursos não formam profissionais competentes”, dizem eles. Seria esperar muito que eles financiassem pesquisas para melhorar a qualidade dos cursos de Comunicação do país, como fazem grandes empresas (não sei se de Jornalismo) do idolatrado (por eles) Primeiro Mundo? Todos sabemos que seria. Por quê? Porque o que eles não gostam não é da competência dos carinhas que a gente forma. O que eles não gostam é da competência, que não decorre necessariamente – como qualquer professor sensato sabe muito bem – apenas da qualidade do curso mas também da qualidade do envolvimento do aluno com o trabalho inerente à profissão que escolheu. E o cara que qualifica esse envolvimento vai tirar do curso muito mais do que os babacas que delegam pro curso toda a responsabilidade pela sua formação e engrossam o coro conformista da falta de qualidade do ensino. E