Documentos esclarecem ações dos EUA frente a ditaduras latinas

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Publicado quinta-feira, 24 de outubro de 2002 as 00:56, por: cdb

No dia anterior ao assassinato de Orlando Letelier, o ex-ministro de Exterior do Chile, morto pela explosão de um carro-bomba preparado por agentes chilenos, aqui, em 1976, um oficial do Departamento de Estado cancelou uma ordem para que embaixadores americanos abordassem ditadores sul-americanos a fim de acabar com o uso de esquadrões de morte no exterior, de acordo com documentos do governo dos EUA.

Apesar de o plano de assassinato estar em estágio avançado e da improbabilidade de aborto do projeto através de esforços diplomáticos de última hora, o cancelamento sublinhou a ambivalência dos criadores das políticas americanas em relação ao confronto dos governos militares da América Latina quanto ao desrespeito pelos direitos humanos.

Os assassinatos de Letelier e Ronni Moffitt, um colega americano que estava no carro do chileno quando o veículo explodiu, em 21 de setembro de 1976, foram planejados pela Operação Condor, uma organização secreta de governos militares de direita da América Latina para compartilhar inteligência e força visando a prender e intimidar adversários políticos.

Seus membros incluíam Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia. Na primavera de 1976 Uruguai, Argentina e Chile começaram a matar membros da oposição no exterior.

“A oportunidade de prevenir isso estava lá e nunca foi usada”, disse Peter Kornbluh, autor de um livro que será publicado sobre as relações dos EUA com o regime militar de Augusto Pinochet no Chile, o “The Pinochet File”.

Uma rápida e rigorosa resposta americana no fim de julho, quando os criadores das políticas americanas souberam dos esquadrões de morte, segundo ele, “poderia ter acabado com isso no meio do caminho”.

Kornbluh obteve o documento do Departamento do Estado, datado de 20 de setembro, com John Dinges, que está escrevendo um livro chamado “The Condor Years”. Os autores, que terão seus trabalhos publicados pela “The New Press”, escreveram sobre a decisão de rescindir a ordem em um ensaio recente no “The Washington Post”.

Em julho de 1976 a Agência Central de Inteligência informou oficiais do Departamento de Estado sobre a Operação Condor, que acabava de ser descoberta, de acordo com documentos. Em 23 de agosto o secretário de Estado Henry A. Kissinger ordenou que embaixadores americanos transmitissem a “profunda preocupação” de Washington sobre a Condor e sobre os contatos diretos entre generais.

Mas, segundo Kornbluh, nenhum documento divulgado até agora mostra que qualquer embaixador tenha se dirigido a chefes de Estado latinos antes de a ordem ser cancelada, em 20 de setembro, pelo funcionário do Departamento de Estado encarregado da América Latina, Harry Shlaudeman.

Ao cancelar a ordem, Shlaudeman disse que não havia sinais, nas semanas prévias, de qualquer atividade da Condor. Dezoito horas depois o carro de Letelier explodiu próximo às embaixadas, aqui em Washington.

Shlaudeman, que agora é aposentado, disse em entrevista por telefone que não acreditava que pudesse ter prevenido os assassinatos se não tivesse cancelado a ordem de Kissinger. “A bomba já estava sob o carro quando minha ordem saiu”, disse Shlaudeman.