Do rádio à internet: a legalidade e a mobilização popular

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Publicado terça-feira, 30 de agosto de 2011 as 19:04, por: cdb

Entrevista especialcom Christa Berger

Nas últimas semanas, diversos veículos de comunicaçãorecordaram a Campanha da Legalidade, que há 50 anos garantiu a posse de JoãoGoulart na presidência da República em 1961, após a renúncia do entãopresidente Jânio Quadros. Apesar da memória, “não sabemos se o retornomidiático da Legalidade chega a cumprir a função de esclarecimento reivindicadapelos que acreditam que a memória possa contribuir para a existência desociedades melhores”, polemiza a jornalista.

Nesta entrevista, concedida à IHU On-Line por e-mail,Christa comenta o papel da imprensa radiofônica naquele momento histórico emenciona que, 50 anos após a Legalidade, a imprensa brasileira “segueconservadora e ocupa um lugar importante na defesa dos interesses privados dosgrandes proprietários da nação”.

Nesta segunda-feira, 29-08-2011, Christa participa doSeminário 50 anos da Campanha da Legalidade: memória da democracia brasileira,promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. A conferência Do rádio àinternet: a legalidade e a mobilização popular hoje acontece às 20h, noAuditório Central.

Christa Berger é professora aposentada da UniversidadeFederal do Rio Grande do Sul – UFRGS e professora do PPGCOM da Unisinos.Christa Berger é autora de Campos em confronto: a terra e o texto (PortoAlegre: Editora da Universidade, 1998), e uma das organizadoras do livro OJornalismo no Cinema (Porto Alegre Editora da Universidade – UFRGS, 2001).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O queera e como funcionava a cadeia radiofônica da Legalidade?

Christa Berger – Quando da renúncia do presidente JânioQuadros em 25 de agosto de 1961 e a tentativa de os ministros militares vetarema posse do vice-presidente João Goulart, instala-se um movimento de resistênciacomandado pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola.

O governador requisita a rádio Guaíba e, do porão do PalácioPiratini, passa a se comunicar com os gaúchos criando a rádio da Legalidade.Outras emissoras aderem-se à iniciativa. Afirma-se que são mais de cem (noBrasil e algumas no Uruguai e Argentina) que retransmitem os discursos deBrizola, entrando em cadeia radiofônica. Nos dias seguintes, a programação vaise assemelhando à programação de outras rádios, intercalando informação emúsica, só que com mensagens insurgentes, e de informações políticasatualizadas com o objetivo de fortalecer o sentimento de resistência.

Esta experiência de apenas 10 dias é suficientemente fortepara merecer registro nos estudos de política e de comunicação como mais umexemplo do potencial deste meio de comunicação. A Rede da Legalidadeexemplifica 1) o poder de mobilização do rádio já descrito por Bertold Brechtna década de 1920 através das rádios operárias, na Alemanha, e com tantascontribuições nos processos revolucionários na América Latina e na África; e 2)um meio apropriado para emitir discursos. Basta lembrar do recente filme ODiscurso do Rei, em que o rei George VI usa o rádio para se comunicar com seussúditos. Ele diz: “Nunca antes um rei recém-coroado pôde falar com todos osseus povos, em suas próprias casas, no dia de sua coroação”.

IHU On-Line – Qualera o papel do rádio na construção social e política da sociedade 50 anosatrás?

Christa Berger – Há uma sintonia entre contextos históricos,meios de comunicação e acontecimentos. A imprensa propicia disputas políticasargumentativas e a cobertura de acontecimentos estendidos no tempo – o casoWatergate é um bom exemplo desta afinidade. Já o rádio, pela característica depalavra falada, é uma voz que informa, explica, comenta, critica, faz eco dasconversações privadas e todos os exemplos que o engrandecem; falam de discursos(Allende se despediu do poder no ar) e de mobilizações (a rádio Voz dos Árabesteve papel decisivo na guerra de libertação da Argélia) e a tevê, ao seconsagrar pela imagem, uniu o mundo para celebrar a chegada do homem à lua, oscasamentos reais, mas também a destruição das torres do World Trade Center.

Hoje, a internet responde a características próprias donosso tempo. A circulação é instantânea, não há um lugar fixo de emissão.Muitas vozes se mesclam, e tanto exemplifica a existência solitária em frenteao computador como as cenas de mobilização propiciadas pela organização emrede.

No Brasil dos anos 1950, o rádio é hegemônico; é por onde sedá a conhecer o gosto musical, os novos produtos disponíveis no mercado bemcomo as pendengas políticas. Somente nos anos 1960 este poder começara a serdividido com a televisão.

IHU On-Line – Como aLegalidade é compreendida e interpretada hoje?

Christa Berger – A memória é supervalorizada na sociedadecontemporânea porque as comemorações de datas propiciam grandes negócios –lançamentos de livros, audiências de tevê, estreias de filmes e documentários.Talvez por isso a Legalidade esteja circulando tão intensamente nestes seus 50anos. Como outros fenômenos da sociedade contemporânea, não sabemos se o retornomidiático da Legalidade chega a cumprir a função de esclarecimento reivindicadapelos que acreditam que a memória possa contribuir para a existência desociedades melhores. No entanto, não há dúvida, de que as narrativas sobre aLegalidade trazem para a atualidade aquele rico momento histórico de luta pelademocracia e que, em sua maioria, fazem a crítica aos que já ensaiavam então ogolpe militar que se concretizaria em 1964. Do que tenho lido e visto, a ênfaserecai nos aspectos da resistência, da luta pela legalidade e das biografias doshomens exemplares.

IHU On-Line – Aimprensa deve tomar posição política, como fez à época da Legalidade?

Christa Berger – A imprensa sempre tem posição política. Emmomentos de crise, em situações revolucionárias, os jornais assumem abertamentesuas posições. Armand Mattelart conta que no Chile governado pelo socialistaSalvador Allende, o conservador jornal El Mercurio deslocou sua posição de meiode comunicação de massa para meio de comunicação de classe, pois fez políticapara derrubar o presidente, mesmo diminuindo seus lucros econômicos. Alcançadoseu objetivo, voltou a ser o jornal que afirma “informar com neutralidade eimparcialidade”. O que aconteceu aqui também foi a explicitação da posiçãopolítica já existente. Os grandes jornais acompanharam o movimento peloparlamentarismo, temerosos como, todos os conservadores, sobre um possívelgoverno de João Goulart. A Última Hora foi o único jornal que aderiu à Campanhada Legalidade sendo impresso, inclusive, no porão do Palácio, como conta FlávioTavares, seu editor.

Penso que os donos dos jornais devem anunciar sua posiçãopolítica e apresentá-la em seus espaços de opinião e deixar para os jornalistasa função de cobrir os acontecimentos do dia a dia com os critérios originadosna prática e na consciência dos profissionais.

IHU On-Line – Como vêa atuação da imprensa hoje na cobertura de temas políticos?

Christa Berger – A imprensa brasileira segue conservadora eocupa um lugar importante na defesa dos interesses privados dos grandesproprietários da nação. Por outro lado, o discurso jornalístico, ainda quemarcado pela visão de seus proprietários, expressa contradições e tem pontos defuga que se deve à própria natureza da linguagem e à postura de algunsprofissionais. Um elemento novo neste cenário é a circulação decontrainformação ou de crítica à informação dos veículos da grande imprensaatravés da internet. Os exemplos se multiplicam nesta direção. As manifestaçõesdos jovens de Londres recebem uma cobertura, nos meios hegemônicos,desqualificadora em que são denominados como marginais e bandidos merecedoresda ação violenta da polícia, enquanto imagens, depoimentos e análises deintelectuais situam as ações e os atores em outro patamar nas informações quecirculam nas redes.