Disputa pelo poder argentino mantém explosão social

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Publicado quinta-feira, 27 de dezembro de 2001 as 18:37, por: cdb

Apesar de ter transcorrido apenas uma semana desde que as ruas de Buenos Aires e de outras regiões em todo o país se transformaram em um campo de batalha com mais de 30 mortos, episódios que culminaram com a renúncia do presidente Fernando de la Rúa, a disputa política pelo poder na Argentina não esfriou nem um pouco.

Embora não tenha tido tempo sequer de anunciar todas as medidas econômicas e de implementar algumas delas, o presidente-eleito há quatro dias em sessão extraordinária do Congresso, Adolfo Rodríguez Saá, entrou em uma nova disputa política dentro do Partido Justicialista (peronista), onde a vaidade e a ambição de seus principais líderes representam hoje mais do que bem-estar do povo argentino, razão pela qual, dizem analistas, uma nova explosão social permanecerá latente.

Enquanto os governadores de Buenos Aires, Carlos Rukcauf, de Córdoba, José Manuel de la Sota, e de Santa Fe, Carlos Reutemann, disputam espaço para chegar às eleições convocadas para o dia 3 de março, Rodrígues Saá vem dando os primeiros passos para romper o compromisso peronista e de “cavalheiros” que o levou à presidência para ficar no poder até dezembro de 2003, quando terminaria o mandato de De la Rúa.

De acordo com analistas políticos, nenhum dos chamados governadores fortes pode ou deve subestimar a habilidade política do atual presidente para manter o controle do poder em suas mãos. Em 1983, Rodríguez Saá foi eleito governador de San Luis e nunca mais deixou o cargo, até a semana passada, quando entrou à Casa Rosada como presidente temporário. Isso significa que Rodríguez Saá foi, aliás é, o único governador argentino que não mudou desde que a democracia voltou ao país.

“Confio que o presidente vá cumprir o compromisso de entregar o governo depois das eleições de março”, desafiou De la Sota ao sair da Casa Rosada depois de um encontro com o presidente pouco antes do meio-dia. Logo de manhã, Carlos Menem, outro peronista histórico e que permaneceu no poder por uma década, foi também à sede do governo na Praça de Maio.

Menem foi para “lembrar” Rodríguez Saá da necessidade de incluir todos os setores peronistas na disputa presidencial, exceto ele, já que a Constituição não lhe permite. Um analista político, com raízes na esquerda argentina, disse à Agência Estado que a revolta e a explosão popular de uma semana atrás não significaram que o povo tenha levado o Partido Justicialista ao poder porque quis.

Pelo contrário, foi apenas por falta de opção e por uma “cruel” consequência. Para esse analista, se o PJ não se entender, pelo menos para dar um rumo econômico ao país, a sociedade voltará às ruas. Ele acredita, no entanto, que os peronistas sabem disso e farão o possível para não atrapalhar a curta gestão de Rodríguez Saá.

Mas o que os governadores podem fazer ou o que pode ocorrer se quem aceitou ficar na presidência por apenas três meses decide ficar pelo tempo que foi negado a eles?, indagam os analistas. É aí onde está a disputa que será travada nos próximos dias e, provavelmente, até o dia 3 de março, data para as eleições presidenciais e,por tabela, para resolver a interna do Partido Justicialista. O vencedor será certamente o candidato para as eleições de outubro de 2003.