Discurso de Francisco aos participantes do 2º EMMP

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Publicado sexta-feira, 6 de novembro de 2015 as 09:53, por: cdb

Por Frei Marcos Sassatelli – de São Paulo:

Neste  5º  artigo  sobre  o  2º  Encontro  Mundial  dos  Movimentos  Populares destaco o quarto ponto marcante do Discurso do Papa Francisco: “unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça” (que é a segunda grande tarefa proposta por Francisco aos Movimentos Populares). O Papa Francisco começa dizendo: “Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Querem caminhar em paz para a justiça. Não querem tutelas nem interferências,  onde o mais forte subordina o mais fraco.  Querem que a sua cultura, o seu  idioma, os seus processos sociais e tradições  religiosas  sejam respeitados”.

E  ainda:  “Nenhum  poder  efetivamente  constituído  tem  direito  de  privar  os países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afetam seriamente  as possibilidades de paz e  justiça, porque ‘a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do ser humano, mas também no respeito pelos direitos dos povos,  sobretudo o direito  à  independência’”  (cita  o“Compêndio da Doutrina Social da Igreja” do Pontifício Conselho ‘Justiça e Paz’, 157). Francisco lembra:  “Os povos da América  Latina  alcançaram,  com um parto doloroso, a sua independência política e, desde então, viveram já quase dois séculos duma  história  dramática  e  cheia  de  contradições,  procurando  conquistar  uma independência plena”.

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E constata: “Nos últimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos paíseslatino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os Governos da região juntaram seus esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país e a da  região  como  um  todo  que,  de  forma  muito  bela  como  faziam  os  nossos antepassados, chamam a ‘Pátria Grande’”.O Papa faz, pois, um pedido aos Movimentos Populares: “Peço-vos, irmãos eirmãs  dos  Movimentos  Populares,  que  cuidem  e  façam  crescer  esta  unidade.  É necessário manter a unidade contra toda tentativa de divisão, para que a região cresça em paz e justiça”.Francisco reconhece:  “Apesar destes avanços,  ainda subsistem fatores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e limitam a soberania dos países da ‘Pátria Grande’ e doutras latitudes do Planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes,  é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações,credores, alguns tratados de nominados ‘de livre comércio’ e a imposição de medidasde ‘austeridade’ que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres”. O  Papa  lembra  ainda:  “Os  bispos  latino-americanos  denunciam-no  muito claramente,  no Documento  de Aparecida (66),  quando afirmam que ‘as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais,  sobretudo debilitando os Estados,  que aparecem cada vez maisimpotentes  para  levar  adiante  projetos  de  desenvolvimento  a  serviço  de  suas populações’”.

Como um verdadeiro profeta,  Francisco denuncia: “Noutras ocasiões,  sob onobre disfarce da luta contra  a corrupção,  o narcotráfico  ou o terrorismo –  gravesmales dos nossos tempos que requerem uma ação internacional coordenada – vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores”.

E  continua:  “Da  mesma  forma,  a  concentração  monopolista  dos  meios  decomunicação  social,  que  pretende  impor  padrões  alienantes  de  consumo  e  certa uniformidade  cultural,  é  outra  das  formas  que  adota  o  novo  colonialismo.  É  o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-seconverter os países pobres em ‘peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante’”  (cita  a Exortação Apostólica pós-sinodal  “Ecclesia  in  Africa” de São JoãoPaulo II, 52). O  Papa  conclui  dizendo:  “Temos  de  reconhecer  que  nenhum  dos  graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interação dos Estados e dos povos a nível internacional. Qualquer ato de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos econômicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum Governo pode atuar àmargem  duma  responsabilidade  comum.  Se  queremos  realmente  uma  mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interaçãonão é sinónimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros”.

Sempre com muito realismo, Francisco afirma: “O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata,  gera  violência,  miséria,  emigrações  forçadas  e  todos  os  males  que  vêmjuntos…  precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito  a um desenvolvimento  integral.  Isto  é desigualdade,  e  a desigualdade geraviolência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz dedeter”. Quanta clareza e quanta sabedoria nas palavras de Papa! Meditemos! Diante dessa  realidade  desumana  e  antievangélica,  Francisco  convida-nos  a  tomar  uma posição clara, sem meios termos e sem ambiguidades: “Digamos NÃO às velhas enovas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz”.

Por  último,  o  Papa diz:  “Aqui  quero  deter-me num tema importante.  É que alguém poderá, com direito, dizer: ‘quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se decertas  ações  da  Igreja’.  Com  pesar,  vo-lo  digo:  Cometeram-se  muitos  e  graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-noos meus antecessores,  afirmou-o o CELAM e quero  reafirmá-lo  eu também. Como São João Paulo II, peço que a Igreja ‘se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão pelos  pecados  passados  e  presentes  dos  seus  filhos’”  (cita  a  Bula  “Incarnationismysterium” de São João Paulo II, 11). E  afirma:  “Digo-vos  que  quero  ser  muito  claro,  como  foi  São João  Paulo II: Peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América. Peço-vos  também  a  todos,  crentes  e  não  crentes,  que  se  recordem  de  tantos  bispos,sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a Boa Nova de Jesus com coragem emansidão,  respeito  e  em  paz;  que,  na  sua  passagem  por  esta  vida,  deixaram impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas vezes aolado  dos  povos  indígenas  ou  acompanhando  os  próprios  Movimentos  Popularesmesmo até ao martírio”.

Francisco declara: “A Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que alguns poderes, tanto aqui como noutros países, se empenham por apagar, talvez porque a nossa fé é revolucionária, porque anossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro”. Irmãos e irmãs, reparem a radicalidade evangélica dessas palavras: “a nossa fé  é revolucionária”, “a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro”! Como cidadãos e cidadãs, cristãos e cristãs, o Papa nos provoca, nos faz refletir e nos impele a tomar atitudes firmes.

Com muita dor no coração, Francisco reconhece:  “Hoje vemos,  com horror,como no Médio Oriente e noutros lugares do mundo se persegue, tortura, assassina a muitos irmãos nossos pela sua fé em Jesus. Isto também devemos denunciá-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar”.  Mais uma vez,  irmãos e irmãs,  reparem as palavras:“terceira guerra mundial em parcelas”. Não dá para sermos indiferentes diante dessa realidade! O Papa termina essa parte de seu discurso expressando sua solidariedade deirmão  aos  povos  indígenas:  “Aos  irmãos  e  irmãs  do  movimento  indígena  latino-americano,  deixem-me  expressar  a  minha  mais  profunda  estima  e  felicitá-los  porprocurarem  a  conjugação  dos  seus  povos  e  culturas  segundo  uma  forma  deconvivência, a que eu chamo poliédrica, onde as partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que não atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A procura desta interculturalidade, que conjuga a reafirmação dos direitos dos povos nativos com o respeito à integridade territorial dos Estados, enriquece-nos e fortalece-nos a todos”.

Quanta  sensibilidade,  quanta ternura  e quanta  sintonia com os desafios do mundo de hoje nas palavras e nas atitudes do nosso irmão Francisco! E nós cristãos ecristãs – em nossas Pastorais Sociais e Ambientais – temos essa mesma sensibilidade, essa mesma ternura e essa mesma sintonia? Pensemos!

 

Fr Marcos Sassatelli, Frade dominicano, é Doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção – SP),Professor aposentado de Filosofia da UFGE-mail: mpsassatelli@uol.com.br