Dilma e Levy – Lula e Rui Falcão

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Publicado sexta-feira, 23 de outubro de 2015 as 16:29, por: cdb

Por Celso Lungaretti, de São Paulo:

A crise opõe Dilma ao seu criador Lula e ao dirigente petista Ruy Falcão
A crise opõe Dilma ao seu criador Lula e ao dirigente petista Ruy Falcão e a causa é Joaquim Levy

Há dois nefastos estranhos no ninho em nosso cenário político. A presença deles é, em grande parte, responsável pelo espetáculo medonho de intrigas, traições, mentiras, falcatruas, subornos, chantagens e baixarias a que estamos assistindo, enojados, ao longo deste ano, com o País cada vez mais em parafuso, sem que nenhum governante ou partido  seja capaz de indicar um caminho para rompermos a paralisia dos centros de decisão e determos o contínuo agravamento de nossa pior crise econômica desde a hiperinflação do Sarney.

Tais personagens fora de lugar, com script trocado, ajudam a obscurecer as questões e emaranhar as linhas, quando mais precisamos de clareza para tomar as decisões corretas. Como nas novelas de espionagem e nos thrillers policiais, uma delas não é o que parece ser, enquanto o outro, apesar de ser e parecer um trapalhão, causa, com sua simples presença, divisionismo e impõe enormes ônus morais a um dos lados.

A estranha no ninho é a presidenta Dilma Rousseff, que está filiada ao Partido dos Trabalhadores, mas diverge frontalmente das bandeiras econômicas tradicionais do dito cujo, preferindo a ortodoxia neoliberal. Daí as relações haverem se deteriorado a ponto de ela e o presidente do PT, Rui Falcão, terem travado uma guerra de declarações contundentes há alguns dias.

Falcão (de forma explícita) e Lula (nos bastidores) empenham-se em minar e puxar o tapete do outro estranho no ninho, aquele que atende pelo nome de Joaquim Levy.

Mas Dilma prefere seguir os conselhos do presidente do Bradesco, Luís Carlos Trabuco, que indicou Levy para o ministério e tem conseguido nele mantê-lo até agora, contra a vontade da esquerda, de Deus e do mundo. Talvez a presidenta tenha descoberto, ainda que tardiamente, o discreto charme da burguesia…

O PT, noblesse oblige, é obrigado a defender Dilma do impeachment, mas tem de fazer um verdadeiro contorcionismo para conciliar tal posição com a imprescindível rejeição do arrocho fiscal (cometeria suicídio político caso deixasse de protestar contra medidas que abomina e execra desde seus primórdios).

Os adeptos do impeachment também ficam em posição dúbia, pois pedem a cabeça de Dilma enquanto esforçam-se para salvar a de Joaquim Levy, o representante do grande capital no governo que eles querem derrubar. Ou seja, precisam do endosso dos endinheirados para levarem seus planos adiante, mas não o terão se assestarem suas baterias contra o principal ministro da Dilma. Que morra Dilma, mas que viva Levy! –é o que, na prática, eles estão pregando. Soa esquisito, não?

Então, um primeiro passo para desatar-se o nó que imobiliza o País seria o fim desse samba do crioulo doido ideológico. Eis algumas sugestões:

  • agora que está definitivamente exposta a fratura da total dissonância da cúpula do Partido dos Trabalhadores com a política econômica neoliberal adotada por Dilma, seria o melhor momento para o PT sair do armário (e do governo), passando a encabeçar a oposição de esquerda à presidenta;
  • Dilma, por sua vez, ficaria com as mãos livres para recompor o ministério de forma a respaldar-se nas forças que têm real afinidade com suas diretrizes econômicas, o PSDB e o PMDB (mais os coadjuvantes de sempre, os fisiológicos que gravitam na órbita do poder, esteja quem estiver no poder);
  • neste sentido, ela poderia deixar o PT e, p. ex., reingressar no PDT, que certamente receberia de braços abertos a caneta presidencial, mesmo sabendo que Leonel Brizola estaria se revirando na cova.

Ou seja, sem renúncia, sem impeachment nem golpe (seja ele branco ou sanguinário), o Brasil se desvencilharia das amarras dos liliputianos, passando a direcionar suas energias para o que realmente importa: o reaquecimento da economia.

[Tenho ouvido rumores de que, depois de 970 mil trabalhadores terem perdido o emprego entre o segundo trimestre de 2014 e o mesmo período de 2015, a divulgação dos dados do terceiro trimestre trará números ainda mais acachapantes, com cerca de 1,4 milhão de pobres coitados atirados na rua da amargura. Num país pobre como o nosso, algo assim desgraça e mata muita gente.]

O PT resgataria sua alma, livrando-se do mico de ser obrigado a acumpliciar-se com medidas econômicas tão odiosas e repulsivas. E sua volta à oposição recolocaria Lula na disputa presidencial de 2018, pois a atual derrocada econômica está pulverizando suas chances.

O PSDB e o PMDB ficariam com o que sempre quiseram, o poder. Talvez adiante percebessem que administrar uma economia em frangalhos não é exatamente um grande negócio…

Dilma obteria o que mais tem buscado nos últimos meses, sua prioridade máxima e praticamente única: escapar do impeachment e terminar o seu mandato. Teria, claro, de conformar-se com uma redução do seu poder real, mas seria o preço justo a pagar por tê-lo exercido de forma tão atabalhoada e incompetente. Na condição de rainha da Inglaterra, desempenharia um papel à altura dos seus predicados e não teria como causar maiores estragos.

E os manifestantes de rua provavelmente se conformariam com a meia vitória alcançada, sempre melhor do que uma derrota inteira ou do que o caos para o qual marchamos.
Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso e processado, escreveu o livro Náufrago da Utopia. Tem um ativo blog com esse mesmo título.
 
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