Dilma e a comunidade lusófona

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Publicado segunda-feira, 9 de novembro de 2015 as 15:00, por: cdb

Por Adelto Gonçalves, de Amparo, São Paulo:

A presidente Dilma se desinteressou pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, ao contrário de Lula
A presidente Dilma se desinteressou pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, ao contrário de Lula

Em recente entrevista ao Diário de Notícias, de Lisboa, Salimo Abdula, presidente da Comunidade Empresarial da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CE-CPLP), queixou-se de certo desinteresse do governo Dilma Rousseff pela entidade, ao contrário do que teria ocorrido à época do governo Lula da Silva. Para Abdula, como a presidente brasileira vive hoje um momento diferente do vivido por seu antecessor, a CPLP, se não deixou de ser considerada prioridade, pelo menos é vista como meta menos importante na política externa de seu governo.

Para que essa impressão seja superada, o empresário sugere, entre outras medidas, que, de fato, a CPLP se torne uma área de livre circulação de pessoas, bens e capitais, o que estimularia também o setor informal: hoje não são poucas, por exemplo, as mulheres moçambicanas que, mesmo com dificuldade com a língua, viajam para fazer compras em Dubai, África do Sul e Malásia, a exemplo das caboverdianas que costumam ir a Fortaleza. Se não houvesse ainda tantas exigências com vistos e atestados, viriam ao Brasil ou iriam a Portugal para fazer este intercâmbio. Igualmente as empresas formais poderiam se valer da língua comum para aumentar seus negócios. Abdula lembra que o idioma no impacto de uma empresa tem um custo de 17%.

De fato, os números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) mostram que Salimo Abdula está coberto de razão, pois se tem registrado um flagrante decréscimo nas trocas comerciais entre o Brasil e os demais membros da CPLP (Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste). O ano de 2008 foi aquele em que houve maior intercâmbio entre o Brasil e os demais sócios da CPLP (as exportações chegaram a US$ 3,7 bilhões e as importações a US$ 2,8 bilhões). Em 2014, as exportações foram de US$ 2,4 bilhões e as importações, US$ 2,2 bilhões.

De janeiro a julho deste ano de 2015, houve uma queda de 42% na corrente de comércio em comparação com idêntico período de 2014 (US$ 1,5 bilhão contra US$ 2,6 bilhões). No período, o Brasil exportou US$ 968 milhões e importou US$ 548 milhões, registrando um saldo de US$ 420 milhões. Soja e petróleo representaram cada um mais de 14% das exportações do Brasil até julho. Açúcar, carne e tratores foram outros produtos que se destacaram. Já as importações oriundas da CPLP foram lideradas por gás natural liquefeito e azeite (17%). Peças para aviões, bacalhau, peras, produtos petroquímicos e sulfetos de minério de cobre apareceram em destaque.

A prova de que a África e o Timor-Leste não estão entre as prioridades é que Portugal, no âmbito da CPLP, continua a ser o maior parceiro comercial do Brasil. Nos primeiros sete meses do ano, o Brasil exportou para Portugal US$ 539 milhões e importou US$ 519 milhões. Para a CPLP como um todo, o Brasil exportou, no mesmo período, US$ 968 milhões e importou US$ 548 milhões. Ou seja, quase 70% de todo o comércio no espaço lusófono o Brasil faz com Portugal.

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015),Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003),Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), eDireito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros.Foi professor universitário nas Faculdades Unisantos e Santa Cecília, em Santos.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins