Dilma demite pelo telefone

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Publicado quarta-feira, 30 de setembro de 2015 as 16:26, por: cdb
Por Celso Lungaretti,  de São Paulo:
Método expeditivo de demitir ministro: por telefone!
Método expeditivo de demitir ministro: por telefone!

Todos nós sabemos que o Ministério da Dilma é de péssima qualidade e não inspira respeito. Mas, pelo menos, deveria simular o mínimo de consideração por seus ministros,  como o tal Arthur Chioro, da Saúde, demitido pelo telefone, numa ligação que durou míseros dois minutos. Algo assim:

Alô! Aqui é a Dilma. Estou falando com o Chioro? Como vai, tudo certo? Que ótimo! Então, não vou ficar com remorsos por estar te exonerando agora. Afinal, a saúde e a família são o que realmente importa, não é mesmo? Passar bem!

Tomara que também lhe comuniquem o impeachment pelo telefone. Ela merece!

Telefone é para o chefe da Polícia informar aos malandros onde tem roleta funcionando, não para demitir ministros.

Ainda mais um não-cheira-nem-fede sem qualquer culpa grave no cartório, que está saindo apenas a fim de abrir vaga para as barganhas da politicalha imunda.

Quanta falta de civilidade! Que contribuição poderá dar à causa dos humilhados e ofendidos quem demonstra tanta arrogância e tamanho desprezo pelos subalternos?!

E, como fiz acima uma alusão ao nosso primeiro samba, que em 2016 completará 100 anos, vou fechar este artiguete com uma lufada de ar fresco, para espantar o fedor nauseabundo da política: um vídeo raríssimo de Chico Buarque cantando “Pelo telefone” com o autor, Donga, em 1966.
Ele mal entrado nos 22 anos e o velho pioneiro surpreendentemente jovial aos 76. De arrepiar!
AJUSTE DO LEVY DEFENDE GRANDES BANCOS E FUNDOS DE INVESTIMENTO.
PALAVRA DO PT.
Centro de estudos criado e mantido pelo PT, a Fundação Perseu Abramo lançou 3ª feira,  uma verdadeira catilinária contra a política econômica do governo de Dilma Rousseff.
Trata-se do volume inicial do estudo “Por Um Brasil Justo e Democrático”, que é assinado também por outras cinco entidades e expressa de forma contundente o repúdio da cúpula dirigente do PT à opção neoliberal de Dilma, como se constata nestes trechos:

A lógica que preside a condução do ajuste [ou seja, o arrocho fiscal do Joaquim Levy] é a defesa dos interesses dos grandes bancos e fundos de investimento. Eles querem capturar o Estado e submetê-lo a seu estrito controle, privatizar bens públicos, apropriar-se da receita pública, baratear o custo da força de trabalho e fazer regredir o sistema de proteção social.

O ajuste fiscal em curso está jogando o país numa recessão, promove a deterioração das contas públicas e a redução da capacidade de atuação do Estado em prol do desenvolvimento. Mais grave é a regressão no emprego, salários, no poder aquisitivos e nas políticas sociais.

O documento também acusa o pacote fiscal de deteriorar o ambiente econômico social, enfraquecendo o governo e amplificando “a crise política e as ações antidemocráticas e golpistas em curso”, daí a premência de se “retirar o país da desastrada austeridade econômica”.
É evidente que o fogo amigonão ajudará a salvar o agonizante governo de Dilma. Então, presumo que o partido esteja fazendo uma opção por sua sobrevivência, independentemente da sobrevivência ou não de Dilma.2.
Pegaria mal mandá-la às urtigas, mas o PT deixa claro que não avaliza o abandono de suas bandeiras históricas e conversão oportunista à ortodoxia econômica do capitalismo.
Pois, pior do que a destituição de Dilma será seu defenestramento como uma reles neoliberal. Aí o prejuízo será total e enorme a dificuldade para o PT juntar os cacos no day after.

Portanto, o partido –com visível anuência, ou até instigação, por parte do Lula– está definindo os limites do seu apoio à Dilma.

O recado nas entrelinhas é: se quer nosso apoio incondicional, livre-se do Levy e mude a política econômica; caso contrário, só vai ter apoio parcial e caberá a nossos seguidores a avaliação de se compensa suarem sangue para salvar um governo que prioriza “a defesa dos grandes bancos e fundos de investimento”.

Para quem já está com a popularidade na casa de um dígito, é mais um empurrão ladeira abaixo.
Merecido: a teimosia de Dilma é tão exacerbada quanto sua incompetência. Empacou na ingênua presunção de que os Setúbals & Trabucos da vida evitarão sua degola e vai manter tal aposta desastrosa contra todas as evidências, até o mais amargo fim.

O FIM DOS HOMENS…

…é dos mais melancólicos.
Organizei a minha vida de uma forma que me permite esquecer durante quase todo o tempo que já sou um idoso. Tenho ideais, uma esposa mais jovem, uma filha adolescente e outra ainda criança, a memória não me falha nem me falta o pique quando necessário.
Mas, os amigos estão aí para me recordarem a triste realidade.
Três se foram quando, com meu otimismo de sempre, cogitava visitá-los mas ia adiando, como se o futuro ainda fosse uma alameda florida.
Dois eram companheiros e amigos do movimento secundarista e depois da VPR. Dos oito jovens que em abril de 1969 assumimos o desafio precoce da luta armada, tombaram o Eremias e o Gerson sob os tiros da repressão, mais o Gilson e o Mané em passado recente, por doenças.
Cheguei a rever o Gilson duas vezes e ficamos de nos encontrar outras, mas acabou não acontecendo. Sua morte inesperada  doeu demais.
Com o Mané troquei algumas mensagens por e-mail, mas percebi que algumas lembranças ainda eram traumáticas demais para ele.
O jovem que cantava como o Vandré teve sina de sofredor tal qual o ídolo. Ironias do destino.
E houve o caso do meu ex-colega de escola secundária, que trabalhava na USP quando cursei a ECA e teve presença marcante na minha fase de loucos sonhos dourados. Consegui seu telefone, liguei para ele depois de muito tempo, conversamos animadamente… mas omitiu que estava nas últimas, com câncer. Ficamos de nos ver brevemente e ele sabia que era uma quimera. Duas semanas depois morreu.
Hoje, procuro não me distanciar muito dos velhos amigos, para não ter mais tais surpresas e tais remorsos.
Fui visitar um que está prestes a tornar-se octogenário; saí arrasado.
Pois percebi que está com alzheimer e evita admitir. Esquecido de episódios que nos envolveram, tentou sutilmente fazer com que eu falasse sobre eles, reavivando-lhe a memória. Fingi ignorar qual era a jogada e fiz sua vontade.
Pior ainda foi a contagem dos mortos. Parece inescapável nos idosos a compulsão de enumerarem quantos conhecidos e amigos morreram ou estão pela bola sete.
Não sei se nos outros provoca algum alívio, eles se foram e eu continuo aqui. A mim só causa pesar. Lembro deles como eram outrora e fico me indagando: quem os recordará depois?
O fim não me incomoda tanto quanto a suspeita de que não legarei a minhas filhas um mundo melhor do que eu recebi.
Ainda conservo uma tênue esperança de que haja alguma evolução positiva nos anos  que me restam (indeterminados, não paira nenhuma ameaça imediata sobre mim).
Isto aumenta minha ansiedade por ver as pedras voltarem a rolar. Quando já não se tem tanto tempo pela frente, é exasperante atravessar uma fase de estagnação como a atual, em que o passado teima em não dar passagem para o presente e o futuro fica encruado.

Vem-me à mente o “Réquiem para Matraga”, do Vandré:

“Tanta vida pra viver,
tanta vida a se acabar.
Com tanto pra se fazer,
com tanto pra se salvar.
Você que não me entendeu,
não perde por esperar!”
Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso e processado, escreveu o livro Náufrago da Utopia. Tem um ativo blog com esse mesmo título.
 
Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.