Dietrich e Riefenstahl encontram-se na Cinemateca Brasileira

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Publicado segunda-feira, 16 de setembro de 2002 as 17:17, por: cdb

Elas não se reencontram desde que participaram de um baile, em 1928. Mais de 70 anos depois, Marlene Dietrich (1901-1992) e Leni Riefenstahl, que comemorou cem anos no mês passado, são confrontadas no ciclo “Duas Estrelas Alemãs”, que é inaugurado amanhã na Cinemateca Brasileira.

No primeiro encontro, ambas eram atrizes em ascensão na liberalizante Berlim dos anos 20. No entanto, elas ocupariam trincheiras opostas a partir da consolidação do nacional-socialismo alemão: a bela Dietrich como estrela anti-nazista, e Riefenstahl, a cineasta favorita de Hitler. Por que, portanto, reuni-las novamente?

“Primeiro, para marcar o centenário de ambas, mas fundamentalmente porque as duas fazem parte da história alemã, apesar de representarem lados diferentes”, diz Bruno Fischli, diretor do Instituto Goethe de São Paulo.

“Nossa intenção é ainda discutir os vínculos entre as esferas de arte e política. Como escreveu Walter Benjamim, não é possível entender o fascismo apenas racionalmente, precisamos senti-lo emocionalmente. Transformar a obra de Leni em tabu seria o inverso dessa proposta”, afirma Fischli.

Tanto Dietrich quanto Riefenstahl pagaram caro por suas posturas políticas na Alemanha. A primeira foi vaiada e recebida com faixas “Marlene, go home”, quando retornou a Berlim, em 1960, acusada de ter traído sua pátria, nunca mais retornando ao país. A segunda, satanizada por sua parceria com Hitler nos filmes “Triunfo da Vontade” e “Olympia”, sendo presa pelos aliados e absolvida pelo Comitê de Desnazificação, pois sempre negou que tivesse conhecimento das vítimas do Holocausto ou feito propaganda nazista.

“Se você vê novamente [‘Olympia’], percebe que ele não contém nenhuma cena reconstruída. Tudo é verdade. Ele não apresenta comentários tendenciosos. É história. Reflete a verdade do que ocorreu em 1934. Portanto é um documentário, e não um filme de propaganda”, afirmou a cineasta numa entrevista em 1964.

Entretanto, polêmicas decorrentes do período não param de surgir. A mais recente, do mês passado, é um pedido de explicações, assinado entre outros pelo escritor alemão Günter Wallraff, sobre declarações de Riefenstahl, de que ela teria reencontrado todos os ciganos utilizados como figurantes em “O Vale” (“Tiefland”), de 1954, após as filmagens. Foi comprovado que 20 desses 48 ciganos morreram num campo de concentração romano.

No ciclo da Cinemateca, “O Vale” não foi incluído. “É um filme ruim, apresentamos apenas aqueles que a revelaram como atriz e cineasta e os realizados com apoio de Hitler”, conta Fischli.

O evento apresenta ainda dez dos 55 filmes estrelados por Dietrich, além de dois documentários sobre a atriz, o mais recente deles, “Sua Própria Canção”, de seu neto J. David Riva. Há ainda uma mostra de fotografias de Dietrich do Museu do Cinema de Berlim (veja galeria de fotos em www. folha.com.br/ilustrada).

Fischli selecionou também artigos de jornal que documentam a passagem de Dietrich pelo Brasil, em 1959. Entre eles, um texto do poeta Manuel Bandeira, para a “Folha da Manhã”. Na época, a atriz foi acusada de expulsar três negras, contratadas para atuarem no espetáculo. “É mentira, ela gostou tanto das bailarinas que as levou para Buenos Aires”, conta Abelardo Figueiredo, que dirigiu a atriz.

Finalmente, o ciclo traz ainda performances e a leitura dramática do texto inédito no Brasil “Marleni – Divas Prussianas, Loiras como Aço”, de Thea Dorn, com Cristina Mutarelli e Regina Braga. O espetáculo deve ser montado no próximo ano, provocando um novo encontro entre a bela e a fera.

“Duas Estrelas Alemãs”
Ciclo com filmes, performances e exposição sobre a atriz Marlene Dietrich e a cineasta Leni Riefenstahl.
Onde: Sala Cinemateca (lgo. Senador Raul Cardoso, 207, SP, tel. 0/xx/ 11/ 5084-2318).
Quando: abertura amanhã, às 19h. Até 6/10. Programação completa em www.goethe.de/saopaulo.
Quanto: de R# a R$ 10, performances com entrada gratuita.