“Diários de motocicleta” estréia nesta sexta-feira nos EUA

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Publicado quinta-feira, 23 de setembro de 2004 as 22:33, por: cdb

O filme “Diários de motocicleta”, do brasileiro Walter Salles, entra nesta sexta-feira em cartaz nos Estados Unidos e pode render um Oscar ao ator Gael García Bernal, que vive o lendário Che Guevara.

“Nunca quis imitar o Che, mas encontrar sua voz, a de um latino-americano de 23 anos”, disse à EFE o ator mexicano. “E como me disse seu amigo Alberto Granados, isso é o que sou, um latino-americano de 23 anos. Por isso, minha voz é tão válida como a sua.”

Foi uma coincidência destacada nas filmagens dessa produção que retrata as viagens de juventude do guerrilheiro e de Granados pela América Latina. Durante a filmagem, García Bernal completou 23 anos; na mesma semana do aniversário de seu personagem na tela.

“Foi um ato de fé que me transformou para sempre. Posso dizer sem pudor que para mim existe um antes e um depois de filmar ‘Diários de motocicleta'”, acrescentou.

Em Hollywood também existe um antes e um depois de conhecer Gael García Bernal. Filho de atores e nascido em Guadalajara (México), seu trabalho na tela foi para ele uma brincadeira de criança, algo que fazia porque seus pais se dedicavam a isso.

No entanto, sua presença em “Amores Brutos”, filme que lhe conferiu fama, teve mais seriedade do que brincadeira. O ator seguiu com a mesma qualidade e deixou a mesma marca no público em “E sua mãe também”. E, recentemente, participou do filme “A má educação”, do espanhol Pedro Almodóvar.

Em todos os casos, García soube se transformar no rosto do novo cinema hispânico. “Eu não escolho meus papéis para ser uma estrela. Faço essas histórias que acho que devem ser contadas.”

Histórias como a da juventude de Ernesto Guevara, antes da revolução, antes de Cuba, uma viagem de descobrimento de sua própria identidade e de sua América Latina natal.
García reconhece que foi um personagem bastante próximo de sua própria busca. “E não falo só por mim mas por milhões de latino-americanos e, imagino, de gente no mundo, que em um momento em sua vida procura suas raízes.”

Isso não quer dizer que fosse fanático pelo Che. Ao contrário, nunca teve sua famosa foto colada na parede e até deixou de prestar atenção nele em razão da banalização de sua figura, “presente até nas camisetas de Britney Spears”.

Gael García compreendeu muito mais o Che ao longo de uma filmagem que, dentro do possível, seguiu os passos de sua juventude, visitando os mesmos lugares que o revolucionário pisou há meio século para descobrir “infelizmente que a problemática social continua igual”.

Com um sorriso característico que contorna a maturidade de suas palavras, García disse que ainda lhe falta “um pouquinho” para se parecer com o Che, embora isso não intimide sua consciência social. Ele a deixou entrever durante a entrega do Oscar em 2003, quando quebrou o protocolo da cerimônia e falou de paz no palco, enquanto no Iraque a guerra acabara de eclodir.

“Qualquer esforço por ser coerente é o que te faz ser feliz e dormir tranqüilo. Se naquela noite não tivesse dito nada, eu teria me sentido muito hipócrita.”

A crítica de Hollywood aposta na volta de Gael García Bernal ao Oscar, desta vez como candidato a melhor ator com “Diários de motocicleta”.

A cerimônia não será uma novidade para ele, já que até agora esteve ali com quase toda sua filmografia: “Amores Brutos”, “E sua mamãe também” e “O crime do Padre Amaro”, embora em nenhum caso como candidato a melhor ator.

“Os prêmios têm a importância que se deve dar. E em meu caso, digamos que prefiro não pensar neles. Há prêmios todos os anos”, resume com humildade