Diário da Guerra – Os falcões provocam uma revoada de corvos

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Publicado terça-feira, 15 de abril de 2003 as 19:55, por: cdb

O Diário prossegue anarquicamente como a situação em Bagdá.
Durante a pausa, tive tempo de ler a tradução de artigos publicados nos jornais árabes e soube que a cidade de Bagdá foi infestada de corvos, neste últimos dias, que se alimentavam com corpos espalhados pelas ruas.
(Une Armée qui a répandu dans les rues des centaines de cadavres mutilés et brûlés, devenus festin pour les corbeaux. Partout, des corps en état de décomposition, vecteurs de maladies et d’épidémies, emplissent l’air d’une odeur nauséabonde. www.alalam.ma)
De um lado os falcões, do outro os corvos.
Estamos vivendo uma época estranha – uma guerra feita com base na não provada existência de armas químicas e bacteriológicas, supostamente escondidas; em nome da paz mundial se passou por cima da ONU; para se derrubar um ditador sanguinário espallhou-se a morte e o terror; e em nome da democracia se instaurou a ocupação de um país.

15 de abril de 2003

O primeiro sinal de uma reação dos cristãos contra os fundamentalistas muçulmanos ocorreu, na atual sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU. Uma moção assinada por dominicanos, franciscanos e pela comissão de relações internacionais do Conselho Mundial das Igrejas denunciou a intolerância religiosa, inscrita nas próprias leis de muitos países, causadora de conflitos e atentados. A mesma moção denuncia a falta de vontade desses países em mudar a legislação.

Essa reação é sintomática, pois mostra uma primeira mobilização do Conselho Mundial das Igrejas, criado em 48, em Amsterdã com sede aqui em Genebra, e que reúne 342 denominações cristãs, protestantes e ortodoxas, tendo a Igreja Católica romana como observadora.

A influência dos ortodoxos é grande nesse conselho, onde seus representantes foram acolhidos durante o comunismo soviético. Após a implosão comunista, os ortodoxos retomaram suas igrejas na Europa do Leste e deram sinais de intolerância com relação aos outros cristãos. A Rússia e as outras repúblicas passaram também a se proteger contra uma expansão da religião muçulmana, exportada pelos países vizinhos.

Ao mesmo tempo, ressente-se nas igrejas cristãs, principalmente americanas, um despertamento da fé e dos valores ortodoxos, que poderão acabar com a sonolência das igrejas cristãs da Europa ocidental.

A moção apresentada na Comissão de Direitos Humanos contra atos de violência contra igrejas cristãs no Paquistão, Indonésia e outros países, parece ser o primeiro sinal de que os cristãos poderão sair da letargia do simples protesto e do pedido de revocação das leis discriminatórias.

O escritor francês André Malraux previa que este novo século e milênio seriam religiosos, o que parece ir se confirmando. Embora preguem a paz e confraternização entre os homens, a história tem mostrado as religiões e seus conflitos, na base das guerras, mascarando ou não os interesses economicos.