Destino de cão

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Publicado terça-feira, 4 de março de 2003 as 18:53, por: cdb

Depois que João Ubaldo Ribeiro, num domingo de agosto do ano passado, ter contado a história do cachorro Bingo, do Maranhão, tratado como gente na prisão, me animei a contar também a minha história de cachorro. Sim, a história de um cachorro, pasmem, que não quis ser gente. Talvez se ele conhecesse a história de seu irmão Bingo, em terras dos Sarneys, até arriscasse a ser gente. Mas tenho dúvidas.

Isso ocorreu na última semana de junho de 1969, quando estava terminando meus estudos em Munique, na Baviera. Todos os dias eu ia cedo à Universidade, cruzando belíssimo jardim, o Parque Inglês, que terminava praticamente em frente ao edifício central da Universidade.

Num canto da ponte, por onde sempre ia, me aguardava, todos os dias, durante uma semana, estranho cachorrinho. Em si não tinha nada de especial. Era um Köter, diriam os alemães, e nós, um vira-lata. Mas, me esperava fielmente lá. E ao passar, me seguia os passos, até deixar o parque. Eu atravessava a rua, o olhava como quem se despede, maravilhado e ia para meus estudos. E ele desaparecia. Como me presumo franciscano e irmão dos animais, também deste cachorro, não o enxotava. E assim me seguiu de segunda a sexta-feira. Comecei a me perguntar o por quê de tão estranho fato. Como teólogo franciscano, descartava a possibilidade de uma reencarnação regressiva. Veio-me à mente outra idéia, menos herética, ligada a C. G. Jung que eu na época estudava com entusiasmo. Ele aventa a hipótese de arquétipos que em nós vicejam, ancestrais, cósmicos, vegetais, animais e humanos. Quem sabe, não estaria eu diante de um arquétipo ancestral, emergindo nesse vira-lata em busca de um similar, habitando em mim?

Lá ia eu com tais pensamentos. Cheguei até a discutir as possíveis hipóteses com os colegas doutorandos do convento, vindos de várias partes do mundo, à noite, entre uma cerveja bávara e outra. E todos ríamos muito.

Certo dia, eu decidi tirar a limpo a questão. Tinha que ser com o cachorro mesmo. De repente, me voltei a ele e lhe perguntei em alemão: Willst Du Mensch werden? Em linguagem de cristão: Você quer ser gente? Qual não foi minha surpresa, ao ver o cachorro sair em grande disparada. De vez em quando parava, me olhava, assustado e retomava a corrida. E assim fez por três vezes até desaparecer.

Feliz dele. Ao ouvir o castigo que lhe queria impor, convidando-o a ser gente, se safou como o diabo da cruz. Pretendi ter escutado: “Eu, deixar de ser cachorro e virar gente? Vida de cachorro é muito melhor, não só no Maranhão de João Ubaldo, mas em qualquer parte do mundo”. Eu, por exemplo, invejo meus dois cachorrinhos, Fox Paulistinha, Bugui e Kika. Eles não se angustiam como eu, brincam o dia todo e não lhes faltam comida, médico e carinho.

Esse destino de cachorro gostaria que tivessem as crianças de meu país. Milhões delas não comem, não têm médico nem carinho. Por quê? Essa é uma questão para todos nós refletirmos, o Presidente Lula e seu governo. Agora posso entender porque o cachorrinho bávaro não quis ser gente. Teria que deixar o paraíso cachorral e ingressar no inferno terrenal. Até quando deixaremos que os cachorros tenham sorte melhor que nossas crianças?

*Leonardo Boff é escritor e teólogo.