Desatino e sensatez

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Publicado quinta-feira, 14 de novembro de 2002 as 18:01, por: cdb

Duas palavras tão simples: um nome próprio, Lula; outro, comum: presidente. Dois substantivos. Dependendo da ordem em que são pronunciados, o sentido muda e muda o sorriso em nosso rosto. Antes das eleições, com esperança, dizíamos: “Lula Presidente”. Hoje, com orgulho, dizemos: “Presidente Lula”.
Ontem, havia um desejo; existem, hoje, duas certezas: um mundo novo é possível – difícil será construí-lo!
Dirigentes falavam em economia; economistas em economês. No dia seguinte ao pleito, Lula preferiu falar do lado humano: acabar com a fome de cinqüenta milhões.
Milagre: de repente, aquela criança que víamos dormindo na calçada, solitária, multiplicou-se em cinqüenta milhões de fomes errantes, sem abrigo, catando lixo. Poucos se permitiam vê-las. Ouvindo Lula, tornou-se impossível a miopia.
Houve um presidente, tempos atrás – malfadada memória! – que, sobre o Brasil, só dizia desatinos: nossos carros eram carroças, devíamos sofisticá-los. Só assim seríamos civilizados, e bem recebidos da Corte! Seu tom era arrebatado, seus olhos vermelhos, e branca a espuma em sua boca. Nada sensato dizia sobre a mortalidade infantil e o desemprego: coisas chãs.
Domingo, terminada a apuração, o mundo inteiro nos olhava e nós olhávamos o mundo. O que será que vão pensar de nós, os poderosos gringos nortenhos? Como seremos vistos na sofisticada Europa, presididos por um operário monoglota? Operário de torno mecânico, agora operário nas engrenagens do poder – isso pode?
Pensávamos que Lula nos falaria das grandes potências distantes, e ele nos lembrou da vizinha Argentina!
Antes do desatinado liberalismo que devastou aquele país, a Argentina era a nação mais gordinha da América do Sul; hoje, um terço da sua população, mais que pobre, é miserável. Aos nossos irmãos portenhos, Lula estendeu a mão.
Habituados ao desatino, nós nos deslumbramos diante da sensatez. Mesmo naquelas paragens brasileiras onde antes havia medo compacto, hoje reina apenas desconfiança difusa: – “Será que ele vai mesmo fazer o que prometeu? Será capaz? Quero só ver!”
Temos que ser lúcidos e ver a verdade, de frente e de perfil: Lula só fez uma promessa, só uma – prometeu trabalhar vinte e quatro horas por dia! Alguém duvida? Ele, que descansa trabalhando na cozinha, fazendo comida e lavando pratos?
Essa promessa, com certeza, há de cumprir: vai trabalhar! Penso até que, como primeira medida provisória, Lula esticará as habituais vinte e quatro horas do dia para trinta e seis, e todos os dias serão úteis. Isso sim, devemos temer, pois que aprecio, de vez em quando, um dia inútil… e talvez os dias inúteis estejam com os dias contados…
Não devemos esquecer: votando nele, votamos em nós mesmos, já que Lula avisou: sozinho, nada poderá fazer. Com Lula no poder, estamos todos condenados à criatividade: condenados a inventar o futuro!

*Augusto Boal é dramaturgo e diretor do Centro Teatro do Oprimido.