Delegação brasileira em Durban defende direito dos índios

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Publicado domingo, 2 de setembro de 2001 as 17:23, por: cdb

“Temos de ser encarados como povos indígenas, porque esta é a nossa identificação”, disse Azelene Kaingang, do Conselho de Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Brasil, membro da delegação brasileira enviada à conferência. Com isso, os índios exigem serem respeitados como pessoas, com os mesmos direitos dos demais cidadãos, embora sendo diferentes e vivendo à sua própria maneira. Além de Azelene, que viajou a convite do governo em missão oficial, mais seis índios acompanham os debates da reunião promovida pela Organização das Nações Unidas na África do Sul. Desarticulados no início, aos poucos eles tomam contato com delegados de outros países, na certeza de que será possível somar forças na luta por objetivos comuns. A programação paralela das ONGs que se antecipou à pauta da conferência facilitou os contatos.

“Temos os mesmos problemas e as mesmas reivindicações”, disse a macuxi Irani Barbosa dos Santos Miziaba, da Organização das Mulheres Indígenas de Roraima. Desfilando de cocar, brincos e colar de penas coloridas, entre os pavilhões do Centro Internacional de Convenções, ao lado de dois índios baianos – o pataxó Joel Braz dos Santgos (ou Xarru Ingorá Mirim) e o hã-hã-hãe Agnaldo Pataxó – ela literalmente parou o trânsito.

Delegados de outras partes do mundo, alguns deles vestidos com vistosos trajes típicos de suas regiões, pediam licença para fotografar e filmar a brasileira, como se ela fosse uma figura estranha no meio da multidão. “Na minha aldeia, eu ando nua e ninguém repara”, dissed Irani, apontando a curiosidade dos estrangeiros como um exemplo de discriminação. “Os índios estão aqui para mostrar que estão vivos”, acrescentou a macuxi, sorrindo para uma jornalista oriental de vestido longo e turbante.

Irani e seus parentes pataxós advertem que os índios não devem lutar apenas pela terra, mas “por pela terra produtiva, que tenha mata, caças, água e peixe”, porque disso depende a sua sobrevivência. “A terra é a nossa mãe, não é só um bem material que dá lucro”, observou Irani. Bem diferente das terras dos pataxós da Bahia, interrompeu Agnaldo, vereador pelo PT no município de Pau Brasil.

“Na região de Porto Seguro, onde vive o meu povo, a terra tem de renascer, porque está toda destruída”, emendou Joel Braz, cacique pataxó de Aldeia Nova. A recuperação e a garantia da terra não dependem de titulação, segundo Azelene, mas do reconhecimento dos direitos dos índios. Por isso, as lideranças indígenas não têm essa reivindicação. Eles não exigem também serem reconhecidos como nações, com territórios autônomos dentro de um Estado independente.

Azelene acha que não adiantaria conceder esse status aos índios e não respeitar seus direitos. “Os americanos transforram os territórios indígenas em nações, mas em seguida declararam guerra a eles, ganharam e tomaram tudo”, observou a líder kaingang. “Gosto de ser brasileira, quero continuar brasileira, sem território autônomo, mas com o devido respeito aos direitos de meu povo”, acrescentou.

As índias Luz Gladis Vila Pihue e Nely Marcos, das aldeias quechua e ashandinka, da Selva Central do Peru, são mais radicais. “Lutamos pela nossa autodeterminação e, assim, exigimos ser considerados povos e não populações”, anunciou Pihue, observando que existe uma boa diferença entre as duas coisas. “As populações indígenas são expulsas de suas terras, de acordo com os interesses de mineradoras e madereiras, enquanto os povos conseguem ser respeitados”.

O ministro Tadeu Valadares, secretário do Departamento de Direitos Humanos do Ministério das Relações Exteriores, afirmou ontem, em reunião da delegação brasileira, que os negros e os índios serão o destaque na pauta do Brasil, durante a conferência contra o racismo.
(Leia também Aruanã – O delta de duas culturas, nesta seção)