Déjà vu amazônico: da Borracha de Ford ao Mercado de Soja

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Publicado segunda-feira, 27 de novembro de 2017 as 19:57, por: cdb

Em um cenário de controversos movimentos institucionais, as políticas de desenvolvimento com proteção ambiental, fruto de muitos anos de luta pela defesa da Amazônia e por outro desenvolvimento, estão sob ameaças de retrocesso.

 

Por Marilza de Melo Foucher – de Paris

 

A Amazônia volta ao debate nacional e internacional através de um filme documentário que mostra a exploração predatória da Amazônia e as ameaças do agronegócio ao patrimônio humano e cultural no Pará.

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A maior floresta tropical do mundo, dona de complexos ecossistemas, o bioma, único no mundo, estende-se por nove países da porção sul das Américas: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela, com uma área de 8 milhões de quilômetros quadrados, em números aproximados.

Na porção brasileira desse território, mais especificamente no território do estado do Pará, podemos observar que uma cena se repete: o som bucólico da mata é interrompido em intervalos regulares por um trator de 500 cavalos de potência, que faz chover pesticidas sobre um campo de soja. O veneno se dissipa no ar e irrita as narinas de moradores vizinhos às áreas de cultivo. Contamina, por isso, as lavouras das famílias nativas.

Breve histórico

Todos os detalhes que compõem esse quadro angustiante estão no documentário Beyond Fordlândia. O filme relata os embates entre o mercado e a Amazônia desde as aventuras para a produção de borracha e chega à contemporaneidade da soja como peça chave do agronegócio brasileiro. Uma história cujo rumo precisa de mudanças.

Há 90 anos, sob a batuta do então presidente Washington Luís e do governador Dionísio Bentes, a Assembleia Legislativa do Estado do Pará aprovou a concessão de uma área de aproximadamente 1 milhão de hectares (10.000 km²), situada a 820km da capital, Belém, para Henry Ford, o pai da primeira linha de produção automobilística dos tempos modernos.

O empresário americano tinha uma ideia ambiciosa, como outros em sua época: levar a civilização ao seio da Floresta Amazônica através do plantio de 800 mil hectares de seringueiras e uma cidade inteira para produzir borracha às margens do rio Tapajós, um dos principais afluentes do Amazonas.

Ford precisava garantir matéria prima para a produção de pneus, que custavam cerca de 30% de seus carros. E não lhe agradava a ideia de um mercado controlado por ingleses, que produziam seringueiras em suas colônias orientais. Vale lembrar que as sementes amazônicas, cerca de 70 mil, foram contrabandeadas para a Inglaterra – e de lá para Índia e Nova Zelândia – pelo britânico Henry Wickham.

Presas fáceis

Em poucos anos, o eixo produto da borracha no mundo foi deslocado para as colônias britânicas, deixando para o outrora luxuoso vale amazônico a obsolescência e o esquecimento.

A preocupação de Ford estava ligada à interrupção de mais de 60 anos da cultura da borracha na Amazônia que abasteceu os gigantes da indústria da época. A ideia de Ford – influenciada pelo fascínio característico no imaginário da Era da Borracha – parecia capaz de solucionar a dependência do mercado inglês. Introduzir uma cadeia produtiva de seringueiras na floresta, além de estrutura para beneficiamento do látex, garantiria a esperada autossuficiência.

O dono da maior riqueza do mundo de sua época tentou, por 18 anos, subjugar a floresta selvagem para cumprir seu objetivo. Porém, foi derrotado. Em seu meio natural, as seringueiras espalhavam-se por grandes extensões de mata e eram protegidas pela diversidade de espécies florestais em seu entorno. Quando plantadas em áreas desmatadas e próximas umas das outras, foram presas fáceis para fungos, que paulatinamente consumiram o projeto do empresário norte-americano.

Fordlândia: memória revisitada

O pesquisador Marcos Colón, integrante do Centro de Estudos de Historia, Cultura e Meio Ambiente do Instituto Nelson de Estudos Ambientais da UW, vai ser interessar sobre a história de Fordlândia ao se debruçar sobre o principal objeto de seu estudo: as obras de Mário de Andrade – sua tese de doutorado aborda a representação da Amazônia na literatura brasileira do século XX. Em um de seus escritos, “O turista aprendiz”, o modernista menciona o empreendimento gigantesco de Ford próximo a Santarém-PA.

A ocasião despertou a curiosidade do pesquisador, que realizou diversas visitas ao distrito e iniciou paralelamente à tese o projeto do filme Beyond Fordlândia. Além do apanhado histórico, o filme põe na balança os aspectos ambientais e humanos após as incursões do grande capital na floresta Amazônica. Colón viu no filme produzido uma oportunidade para investigar as nuances das atividades econômicas na região desde 1927, ano da instalação do empreendimento de Ford no Pará.

Fim do juriti

O filme é uma tentativa de ligar o passado da borracha ao cenário contemporâneo do agronegócio na Amazônia. As populações rurais, urbanas, indígenas, todas as mulheres e homens tem uma ligação cultural e histórica com a região, e isso está gravemente ameaçado por esse modelo econômico predatório.

“Nada do que vem da soja, da indústria da soja, é utilizado pelas pessoas daqui. Nada. Um fazendeiro de soja tem quatro tratores, cada um operado por duas pessoas. E só. O resto fica só olhando, aquela terra a perder de vista…”, contou Avelino Campos, residente de Belterra, lamentando também a desaparição do juriti, um pássaro típico da região, atingido pelo veneno pulverizado nos campos de soja.

A preservação da vida e cultura locais torna-se uma ferramenta para a preservação da Amazônia, pois o que sobra das atividades dos ciclos da borracha e da soja é uma memória torpe dos tempos de bonança.

Conflitos de terra

A moratória da soja, assinada em 2006 era um acordo entre sociedade civil, indústria e governo que visava a tirar o desmatamento da cadeia de produção da Amazônia. Essa moratória foi renovada por tempo indeterminado pela então ministra do Meio Ambiente, a bióloga Izabella Teixeira, durante o governo de Dilma Rousseff.

A interrupção do mandato de Dilma por meio de um controverso processo de impeachment – orquestrado por setores do Congresso e do mercado agora agrupados em torno de Michel Temer – fortaleceu setores como a bancada ruralista, além das bancadas evangélicas e o chamado “centrão” da Câmara dos Deputados.

Em um cenário de controversos movimentos institucionais, as políticas de desenvolvimento com proteção ambiental, fruto de muitos anos de luta pela defesa da Amazônia e por outro desenvolvimento, estão sob ameaças de retrocesso. Basta verificar os ataques à legislação ambiental e às Unidades de Conservação, além de planos para exploração de gás não-convencional, a modificação do Código de Mineração, as políticas pró-agronegócio e pesca, os ataques aos direitos indígenas e aos povos tradicionais.

Todos os procedimentos administrativos de demarcação de Terras Indígenas, titulação de quilombos e criação de assentamentos da reforma agrária e Unidades de conservação se encontram paralisados. Enquanto isso, os projetos de lei que legalizam a grilagem se aceleram. Tudo isto vem provocando a recrudescência da violência e assassinatos por conflitos de terra, que já eram graves no governo Dilma e piores sob a administração de Temer.

Expressão da realidade

A produção dirigida por Colón não é a primeira a denunciar as pressões do mercado e a conivência dos governos com a predação de todo um bioma. Diversas séries e documentários retrataram as investidas da borracha e do agronegócio. “Soja, em nome do progre$$o” (Greenpeace, 2006, 40 min.), “Amazônia – heranças de uma utopia” (Ricardo Favilla e Alexandre Valenti, 2006, 90 min.), “Fordlandia” (Marinho Andrade e Daniel Augusto, 2008, 49 min.) estão entre os títulos que abordam essa temática.

A professora Selda Vale da Costa, da Universidade Federal do Amazonas, aponta o quanto esses registros são importantes para contar e denunciar a história do desmatamento e produção da soja na região.

“Um documentário não é a expressão da realidade, mas uma construção a partir do dito e do não-dito. No filme Beyond Fordlândia, especialmente, a verdade que está ali nos documentos de Ford e a verdade dos depoimentos de estudiosos, pesquisadores, ativistas e moradores são postas em diálogo e nos trazem outra visão, mais crítica, diferente daquelas que tecem elogios ao empreendedorismo fordista ou ao agronegócio como alavanca para o tal do desenvolvimento”, avaliou Selda, especialista em Sociedade e Cultura na Amazônia.

O documentário Beyond Fordlandia teve sua estreia oficial no Brasil no dia 14 de novembro, em sessão do 7º Festival Filmambiente, seguida de um debate com o médico Marcus Barros e o diretor Colón, cuja motivação foi sensibilizar o eixo sudeste do país para o tipo de atrocidade que está sendo cometida de forma gradual no norte do país.

Agronegócio

O próximo destino do filme é o Rachel Carson Center for Environment and Society, em Munique. A convite da instituição, o diretor participará de uma exibição e de um debate sobre Beyond Fordlândia no dia 11 de dezembro, com a participação da professora do departamento de Espanhol e Português da Universidade de Wisconsin-Madison, Kata Beilin, e do historiador Antoine Acker, da Universidade de Zurique. A discussão será mediada pelo diretor do Rachel Carson Center, professor Christof Mauch.

No dia seguinte segue para mais um debate no Centro de Estudos Interamericanos (ZIAS) da Universidade de Innsbruck, a convite do professor Martin Coy. A produção disputa seleções de diversos festivais para denunciar as agressões do agronegócio à região e reforçar o alerta sobre a preservação da Amazônia. A expressão é velha conhecida no debate público nacional, e a pressão tende a arrefecer após as primeiras manchetes.

O filme tem sido parte de eventos para discussão do modelo de desenvolvimento que se coloca de forma cada vez mais contundente para a Amazônia. E como esse modelo afeta os ecossistemas e a toda uma dinâmica de vida humana que já têm seu lugar ali.

Marilza de Melo Foucher é economista, jornalista e correspondente do Correio do Brasil, em Paris.