Debate entre conservador e progressista volta à cena no Brasil

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Publicado sexta-feira, 30 de abril de 2010 as 12:48, por: cdb

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançou, nesta sexta-feira, no Rio de Janeiro, duas publicações sobre o desenvolvimento nacional, relativas ao debate travado na década de 40 entre o professor Eugênio Gudin (1886-1986) e o historiador e industrial Roberto Simonsen (1889-1948) sobre planejamento, papel do Estado e desenvolvimento.
 
Para o economista Luiz Roberto Azevedo Cunha, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, neto de Gudin, a reedição pelo Ipea do debate histórico é importante porque, naquela época, o Brasil estava iniciando um processo de desenvolvimento.

– É um documento importante,  em uma época onde não se conhecia economia no Brasil. O conhecimento teórico  da economia era muito pobre – afirmou Cunha aos jornalistas.

Ele lembrou que embora Gudin fosse engenheiro, tinha formação técnica, enquanto  o empresário Roberto Simonsen tinha visão prática.

– O livro tem um claro contraponto entre uma visão técnica, com fundamentos econômicos, e a visão de um empresário defendendo o processo de industrialização, que depois ocorreu – disse.

Cunha observou que a visão técnica de Gudin tinha a preocupação com a relação  custo-benefício. A discussão, então, se referia ao custo  necessário para o país àquela época, para aumentar o processo de industrialização. No debate, Simonsen defendia a planificação da economia, com proteção à indústria nacional e restrição ao capital estrangeiro no país. Gudin, por sua vez, defendia teses contrárias à intervenção do Estado. Era um crítico de medidas protecionistas e defendia a liberdade e igualdade de tratamento para o capital estrangeiro no Brasil.

Gudin considerava que os problemas brasileiros poderiam ser enfrentados com um rígido controle da inflação, baseado na redução dos investimentos  públicos e na restrição do crédito, de acordo com dados do Centro de Documentação da Fundação Getulio Vargas. Luiz Roberto Cunha disse que embora Gudin fosse considerado um monetarista – “era um economista da linha ortodoxa”– já naquela época demonstrava preocupação com a inflação, que causou sérias dificuldades ao país.

– O Brasil foi reconstruído nos últimos 20 anos, depois que você acabou com a inflação. E a preocupação naquela época era exatamente isso. O custo de um processo de industrialização forçado poderia elevar a inflação. O processo de desorganização das contas públicas começa  muito ali – acrescentou.

Cunha lembrou que Gudin, que faleceu em  1986, não chegou a assistir ao término do processo de aceleração da inflação que o Brasil experimentou durante quase 30 anos. As publicações do Ipea têm como autores o reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Aloísio Teixeira, a economista Denise Gentil, da UFRJ, também assessora da Diretoria de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Ipea, e o jornalista e historiador Gilberto Maringoni.