Cunha volta ameaçar Dilma com pedido de impeachment

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Publicado segunda-feira, 19 de outubro de 2015 as 14:49, por: cdb

Por Redação – de Brasília

Presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) não perdeu a oportunidade de, novamente, ameaçar a presidenta Dilma Rousseff com a abertura de um processo de impeachment, ao longo desta semana. Cunha, na manhã desta segunda-feira, disse a jornalistas que “será inevitável” (uma resposta) à declaração da presidenta, que segue em viagem à capital sueca. Na véspera, Dilma lamentou que o escândalo envolvendo as contas secretas de Cunha e de familiares, na Suíça, ocorra com um brasileiro.

Cunha corre o risco de perder o mandato, após as denúncias do MP suíço
Cunha corre o risco de perder o mandato, após as denúncias do MP suíço

Fontes disseram a repórteres de um diário carioca que Eduardo Cunha se irritou com as declarações de Dilma. Prestes a ser processado, no Supremo Tribunal Federal (STF) e na Comissão de Ética da Câmara, o parlamentar planejaria, segundo o jornal, mudar radicalmente o rumo da discussão sobre os pedidos de impedimento da presidenta e adiantar a análise dos processos nos próximos dias.

Em sua viagem de quatro dias à Suécia e Finlândia, Dilma reafirmou que não há qualquer acordo entre o partido dela, o PT, e o presidente da Câmara. No caso das contas secretas, a presidenta não acredita que a repercussão possa afetar a imagem do país no exterior.

– Cunha não integra o meu governo. Eu lamento que seja com um brasileiro (as denúncias) – afirmou Dilma.

As conversas de bastidores, nas últimas horas, têm mobilizado a base aliada e seus adversários, numa tentativa de adicionar mais tempo até a explosão da denúncia contra Cunha, no momento em que a Procuradoria Geral da República apresentar, formalmente ao STF, os detalhes sobre as contas secretas na Suíça, com depósitos de aproximadamente US$ 1,6 milhão. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, disse que precisa de apenas mais alguns dias para formalizar a denúncia, que ele considera “robusta”, contra o integrante do Legislativo. Já o pedido de impeachment da presidenta, assinado por juristas como Hélio Bicudo e Miguel Reali Júnior, será apresentado a Cunha nesta terça-feira.

Conselho de Ética

Denunciado ao STF, em agosto, por Rodrigo Janot, por envolvimento na Operação Lava Jato, Cunha teria orientado seus liderados na Comissão de Constituição e Justiça a segurar há mais de seis semanas, um projeto de reformulação do Código de Ética da Casa. Segundo o diário conservador paulistano Folha de S. Paulo, em notícia divulgada nesta manhã, a proposta do deputado Marcos Rogério (PSD-RO) acelera o rito de cassação de deputados e concede apenas dois dias para o acusado apresentar defesa, uma vez notificado.

Após denúncias do Ministério Público da Suíça de que o presidente da Câmara mantém contas secretas em bancos daquele país, alimentadas por propinas – segundo acusam os investigadores da Operação Lava Jato, da Polícia Federal (PF) – Cunha é alvo de um pedido de cassação, de autoria do PSOL e da Rede. Ele é acusado de omitir os bens no exterior em depoimento à CPI da Petrobras.

Para agravar, ainda mais, os indícios de crime que pesam sobre o deputado, sua mulher e a filha, apenas duas semanas após depoimento na CPI da Petrobras, no qual negou haver bens no exterior, a empresa offshore de Cunha mudou de diretor em Cingapura. Segundo o noticiário, informações enviadas pelo Ministério Público suíço ao Brasil, o novo CEO da empresa seria um “laranja”, colocado no cargo para lavar dinheiro do esquema de corrupção na Petrobras.

Paralisia política

Para evitar um cenário em que o governo da presidenta Dilma, combalido diante da opinião pública mas vivo o suficiente para se livrar do noticiário imposto pelas empresas de comunicação ligadas ao cartel midiático que o Brasil enfrenta, ceda às pressões dos setores mais à direita, parlamentares ligados ao ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, tem orientado a base aliada no Congresso a trabalhar por um desfecho mais rápido para crise que atinge Eduardo Cunha.

Diante do quadro de extrema volatilidade no cenário político, no qual Eduardo Cunha poderá tomar as atitudes mais impensáveis, na tentativa de assegurar o mandato, o núcleo político do governo tem avaliado, segundo interlocutores na Câmara ouvidos pela reportagem do Correio do Brasil, ser benéfica a aceleração do processo para o afastamento de Cunha do cargo, permanecendo a Presidência da Casa com o PMDB.

Para assessores no Planalto e na Câmara, a situação de Cunha torna-se mais insustentável à cada dia, após o agravamento das denúncias. O ponto central das discussões tem sido a capacidade de Cunha de se manter no poder, diante do apoio que recebe de setores da direita e dos parlamentares que o conduziram ao cargo.

Segmentos do núcleo político do governo preveem que Cunha resistirá com a única arma de ainda dispõe, que é o pedido de impeachment contra Dilma. Na avaliação da maioria, porém, o quadro é de uma perda de credibilidade acentuada, por parte do presidente da Câmara, o que será definitivo para a abertura do processo contra a presidenta.

A falta de credibilidade demonstrada, principalmente, nas redes sociais, leva Cunha a situação de alvo da oposição, que hoje cobra abertamente o seu afastamento do cargo e busca evitar que a opinião pública a identifique como cúmplice do provável réu no STF e no Conselho de Ética. Mesmo os principais líderes do PMDB já avaliam como inevitável que Cunha deixe o cargo, para o qual já buscam um substituto.