Cuidadores de doentes terminais

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Publicado sexta-feira, 9 de março de 2012 as 13:10, por: cdb

A mortechega de muitas maneiras. Ora sem nenhum aviso prévio, em terrível surpresa poracidente, por infarto fulminante ou por algum AVC fatal. Ora ela avisalentamente a proximidade pelos anos prolongados, por doençasdegenerativas, pelo câncer incurável e em avanço até o momento em que se divisaa reta final.

Noprimeiro caso, os cuidados voltam-se para os familiares golpeados abruptamentepela partida de ente querida. Nada a fazer com quem nos deixou, já que não senos abriu nenhuma brecha entre o golpe final e a morte. O consolo aos parentese amigos apela a diversas visões humanas e de fé em face da morte.

No casoda morte anunciada, o enfermo carece de ajuda especial para preparar-se para apassagem. Todas as experiências humanas podem ter alguma companhia física,exceto a morte. Cada um a faz por ele mesmo e sozinho. Mesmo duas pessoasmorrendo no mesmo acidente, não morrem juntas, mas na distância intransponívelda solidão absoluta da morte. Na fé, porém, sabemos que ninguém faz a últimapassagem sem companhia. Na oração dos agonizantes pedimos que os anjos assistamo moribundo. O termo anjo se estende a toda a Igreja da glória, começando pelapresença da própria Trindade, da Virgem Maria e dos santos.

Entreguemosaos céus o encaminhamento último e perguntemo-nos como cuidar do doenteterminal enquanto estiver entre nós, seja ainda no tempo de lucidez, seja mesmoquando se lhe apaguem os últimos neurônios da consciência.

Nomomento em que o enfermo se depara com a proximidade certa da morte, corta-lheo coração terrível dor. Sou eu mesmo e por quê? Não, não pode ser verdade.Tempo da negação, do isolamento. Momento difícil para acompanhar o enfermo.Rói-lhe o interior o sentimento de injustiça. Por que ele está nesse estadoterminal? Tal percepção vem-lhe de uma intuição que nasce do próprio corpo edas circunstâncias. Embora não se fale da gravidade da doença e ele mesmoconscientemente a silencie, no fundo tudo em volta respira tal situação defatalidade. Trava-se-lhe dentro a batalha da verdade e da aceitação da verdadea respeito da própria situação. Ele corre atrás de algum médico que lhe digapalavra, ainda que não verdadeira, do consolo da cura. Visita os lugares de milagres.Pessoas que estavam longe da religião, entregam-se a devoções na esperança devencer a doença. E com a atual abundância de pastores e de grupos carismáticospregando e semeando curas, o paciente corre atrás deles.

Mas overdadeiro cuidado não nasce de promessas que nos escapam. Porque da desilusãode não se curar brota a revolta. Em vez de bem espiritual, ao acenar aosdoentes impossíveis curas, quando o caso já chega ao fim, geramos, não raro,ressentimento. Toca-nos ajudar a pessoa a aceitar a morte na esperança da vidaeterna. Aí está a grande mensagem do Cristianismo!