Cruz Vermelha denuncia: EUA violam a Convenção de Genebra

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Publicado quarta-feira, 26 de novembro de 2003 as 10:59, por: cdb

– Os Estados Unidos estão há anos violando, com os detidos de Guantánamo, certas disposições das convenções de Genebra, das quais o Comitê Internacional da Cruz Vermelha é depositário- afirma seu presidente, Jakob Kellenberger.

Em uma entrevista publicada pelo jornal Le Temps, o suíço Kellenberger, cujo posto o obriga a ter prudência em suas declarações públicas, afirma, no entanto, que o diálogo com os EUA é “intenso e comprometido em diferentes níveis”.

-É inegável que existem importantes divergências de pontos de vista (com os EUA)- diz Kellenberger, que afirma ter pedido às autoridades americanas, em sua última visita a Washington, “mudanças significativas” no tratamento dos detidos na base militar americana em solo cubano.

-Disse então que voltaria a Washington para avaliar a situação depois da últimas visitas da Cruz Vermelha a Guantánamo. Decidirei se intervenho publicamente dependendo de como se desenvolverem estas discussões (com o Governo dos Estados Unidos)- explica à publicação o alto funcionário internacional.

Em relação ao atentado de 27 de outubro contra a sede do CICV em Bagdá, que causou inúmeras vítimas, Kellenberger defende a decisão de sua organização de “fechar provisoriamente” seus escritórios tanto na capital iraquiana como em Basra.

Perguntado por que a Cruz Vermelha se tornou alvo dos terroristas no Iraque, seu presidente diz: “Vivemos em um mundo mais polarizado e radicalizado”, em conseqüência do que “em alguns meios existe a tentação de classificar cada ator em um e outro campo”.

-Ocorre que nossa sede principal está em Genebra e que nosso financiamento procede fundamentalmente dos governos ocidentais, o que faz com que, de repente, alguns nos confundem com o mundo ocidental. É primordial corrigir esta percepção equivocada. – lamenta Kellenberger .

-O CICV é uma organização independente e neutra. Desenvolve suas atividades em todas as civilizações e quer criar raízes ali e ser aceita. Nunca como neste momento de polarização das relações internacionais foi tão necessária uma organização como a nossa.- acrescenta na entrevista.

-A Cruz Vermelha é um ponto de referência para o compromisso humanitário independente. E em nome desta independência, rejeitou proteção militar no Iraque- explica seu presidente, que visitou a Arábia Saudita e o Kuwait e que participou da Cúpula da Organização de Estados Islâmicos para reiterar esta mensagem de independência.

-Esta mensagem deve transitar não só entre chefes de Estado, mas também nos palcos de operações onde trabalhamos- explica Kellenberger, que lembra que “a metade das atividades do CICV se desenvolve em países islâmicos”.