Crítica alemã celebra Cidade de Deus

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quarta-feira, 14 de maio de 2003 as 10:58, por: cdb

Cidade de Deus está merecendo uma atenção inusitada dos críticos alemães, que não hesitam em usar superlativos para qualificar a primeira grande produção do diretor Fernando Meirelles.

Os críticos alemães reportam-se a mestres do cinema épico – Sergio Leone, Sam Peckinpah, Martin Scorsese – para comentar o filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund, em relação ao qual “nenhuma comparação é exagerada”, como afirma Hauke Goos na revista Der Spiegel.

A “obra-prima” – caracterização utilizada repetidamente – “desmonta o velho mito do filme de gângster para recompô-lo em seguida”, define Tobias Kniebe no diário Süddeutsche Zeitung.

E, para não deixar nenhum leitor em dúvida, cita-se ainda o produtor alemão Bernd Eichinger, que considera Cidade de Deus “talvez o melhor filme dos últimos dez anos”. Foi, aliás, a distribuidora de Eichinger, a Constantin-Film, que comprou os direitos para a Alemanha.

Uma versão cuidadosamente dublada está em cartaz em 150 cinemas da Alemanha desde quinta-feira, tendo atraído 60 mil espectadores até o fim de semana passado. Um número que Frauke Allstadt, da distribuidora, definiu à DW-WORLD como “satisfatório”, considerando que o filme foi lançado numa semana de sol, em que as pessoas geralmente preferem estar ao ar livre do que numa sala de cinema.

Allstadt acredita que o movimento no próximo fim de semana permitirá avaliar se o filme é realmente capaz de conquistar o público alemão.

Em inglês, “filme” também é chamado de “motion picture”, lembra o crítico Daniel Kothenschulte no Kölner Stadt-Anzeiger, impressionado com a força da linguagem visual desta obra brasileira. E destaca a cena em que um dos bandidos, com o jornal na mão, responde que “lê as fotografias” – quando um outro lhe pergunta se sabe ler – como sendo a síntese programática do filme, que retoma “a grande arte da narração visual” com que o cinema latino-americano sobressaiu na década de 60.

Os destaques para a diversidade do trabalho de câmera, que encontrou uma linguagem e um ritmo próprios para cada episódio do filme, são uma tônica nos comentários.

Não há quem questione que a violência tenha um caráter visceral num filme como este. O que importa é que “Meirelles e Lund utilizem a violência apresentada para realmente tornar visíveis as leis que regem a anarquia”, consta no artigo do Süddeutsche Zeitung. E impressiona como o filme, que às vezes parece extrapolar seus próprios limites, sempre retorna “magicamente para o seu caminho, entrelaçando os fios da meada que mantêm coesa a vida na favela”.

O maior mérito do filme talvez seja, argumenta o crítico Kniebe, permitir que o espectador penetre de tal forma na história que ele sai do cinema com a impressão de ter conhecido as personagens e com a sensação de perda, diante das muitas mortes.

– Que a gente não se esqueça daquelas pessoas, de suas histórias, seus sonhos, sua vivacidade; e que a gente se sinta feliz por estar entre os poucos que conseguiram escapar.