Cristo, nossa páscoa, foi imolado

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Publicado quarta-feira, 4 de abril de 2012 as 12:42, por: cdb

Sabemos que a origem da Páscoa cristã remonta atradições religiosas anteriores ao mundo da Bíblia. Inicialmente era uma festapara celebrar a chegada da primavera no hemisfério norte. Depois ela passou aser também um momento cultual de agricultores, no qual se oferecia àsdivindades os primeiros frutos da terra. Quando as populações mediterrâneas setornaram nômades e pastoris, a festa da Páscoa passou a ser um ritual paraoferecer aos deuses os primogênitos dos animais. Uma espécie de culto degratidão e ao mesmo tempo de súplica pela prosperidade e fertilidade da terra edos rebanhos. Mais tarde, quando tribos nômades da então Canaã se juntam paraformar o povo de Israel, a Páscoa passou a ser a festa da libertação, vistacomo a passagem de Javé pelo Egito para tirar o povo da escravidão.

Com a chegada do cristianismo, a Páscoa judaica,aos poucos, foi se convertendo em Páscoa de Jesus. Passou-se a celebrar aressurreição de Cristo, evento central da fé cristã. Um dos primeiros escritoscristãos, datado entre os anos 54 a 57 d. C., assim se expressava: “Se Cristonão ressuscitou, a nossa pregação é vazia e também é vazia a fé que vocês têm”(1Cor 15,14). A fé na ressurreição de Jesus é a crença na vitória de Cristosobre a morte. Ele morreu, mas está vivo e caminha conosco. Assim sendo, acelebração da Páscoa cristã é a celebração da vida: “A morte foi engolida pelavitória. Morte, onde está a sua vitória? Morte, onde está o seu ferrão?” (1Cor15,54-55).

Portanto, celebrar a Páscoa é celebrar a vida, comtoda a sua beleza e riqueza. Não teria, pois, sentido celebrar a Páscoaaceitando passivamente todas aquelas formas de violência e de ódio que ceifamvidas humanas e destroem o nosso planeta, única casa que temos para viver.Neste sentido, a Páscoa cristã, recuperando a simbologia da Páscoa judaica, é afesta do compromisso e do engajamento, da luta pela liberdade e contra todas asformas de escravidão.

A Páscoa é a festa da disponibilidade, a festa daaudácia, do convite para ir à luta, na busca da terra prometida, ou seja, dajustiça que gera igualdade e equidade. A Páscoa não pode ser celebrada por quemcruza os braços e aceita tudo resignadamente. Segundo a tradição judaica, durantea Páscoa Deus passa para libertar, mas as pessoas precisam acolher essapassagem lutando e conquistando o espaço da liberdade. Por essa razão, diz anarrativa simbólica da Páscoa judaica, é preciso celebrá-la “com cintos nacintura, sandálias aos pés e cajado na mão” (Êx 12,11). Assim sendo, acelebração da Páscoa é convite à prontidão. Sem sair do próprio lugar, sem ir àprocura, sem enfrentar os desafios, a liberdade e a libertação não virão.

As primeiras comunidades cristãs entenderam isso muitobem e desde cedo falaram da Páscoa como imolação de Jesus: “Cristo, nossapáscoa, foi imolado” (1Cor 5,7). Não se trata de um elogio fúnebre ao sacrifíciode Jesus, à sua morte brutal, uma vez que essas comunidades tinham consciênciade que Jesus não fora mandado por Deus para morrer de modo violento. Jesus foraenviado para anunciar uma Boa Notícia aos pobres: a libertação de toda forma deopressão (Lc 4,18-19). A sua morte brutal foi o resultado de um pacto entre opoder político romano e o poder religioso do templo. Ambos se uniram paraeliminar um profeta incômodo que, anunciando a libertação dos cativos, ameaçavaesfacelar um sistema construído sobre a opressão política e religiosa do povo(Jo 19,9-12).

Sendo celebração da vida, a Páscoa cristã,recuperando a simbologia judaica (Êx 12,1-20), foi vista desde o início como afesta da imolação. Imolação entendida como coragem para romper com sistemas esituações que impedem a vida de desabrochar. Os sistemas religiosos epolíticos, corruptos e violentos, que geram morte e destroem a vida são, deacordo com os primeiros cristãos, o “fermento velho” que faz a vida apodrecer.Por essa razão é preciso celebrar a Páscoa “sem fermento”, ou seja, semcorrupção, sem adesão a tais sistemas (1Cor 5,6-8). Sem isso, diz esse texto docristianismo nascente, haverá só malícia e perversidade.

Portanto, celebrar a Páscoa não é comer ovo dechocolate e sair por aí distribuindo figurinhas de coelhinho e nem “santinhos”de Jesus ressuscitado. Precisamos retornar às origens e entender a Páscoa comofesta da vida e como compromisso para que a vida seja sempre uma festa. Semengajamento e sem participação da nossa parte, sem compromisso com a justiça esem luta, a Páscoa se transforma numa celebração consumista, voltada para osuperficial e para o medíocre. Não será a festa da libertação e da ressurreiçãode Jesus.

Nós cristãos muitas vezes agimos como aquelasprimeiras pessoas que na madrugada do domingo de Páscoa foram procurar Jesus notúmulo. Mais de dois mil anos depois nós nos comportamos como se Cristoestivesse apodrecido no sepulcro. Não temos esperança, não acreditamos na vida,não nos comprometemos com nada. Vivemos com medo e só pensando em nós mesmos. Éhora de agirmos como anjos da ressurreição, gritando para todos os que fazemparte do cristianismo: “Por que vocês estão procurando entre os mortos aqueleque está vivo? Ele não está aqui! Ressuscitou!” (Lc 24,5-6).

É hora de dizermos que o encontro com a vida plena,com o Ressuscitado, não se dá na escuridão dos túmulos do egoísmo, mas naclaridade, na luz da abertura para o outro, na solidariedade. Mas para que talencontro aconteça é indispensável o deslocamento para a Galileia, ou seja, paraas periferias do mundo. Por mais contraditório que possa parecer, é naperiferia que se dá a verdadeira Páscoa. Ali todos nós podemos encontrar aqueleque é a Vida e o sentido para as nossas vidas: “Vão anunciar aos meus irmãosque se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão” (Mt 28,10). Oxalá, nesta Páscoa,tenhamos a coragem de realizar este deslocamento, que, às vezes, é mais mentale cultural do que físico e geográfico. Isso nos permitirá um verdadeiroencontro com o Ressuscitado!