Crise Social, crise financeira e sustentabilidade

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Publicado sexta-feira, 26 de agosto de 2011 as 10:46, por: cdb

Por Jorge Abrahão
Presidente do InstitutoEthos

A junção da criseclimática com a crise financeira global leva à necessidade de uma profundareflexão sobre o modelo econômico e civilizatório adotado pela maioria dospaíses da Terra

A grave situaçãoatual do mundo confirma Vinícius de Moraes: é impossível ser feliz sozinho. Mascomo “estar junto” e “feliz”? Esta é a pergunta que está nas ruas, nas casas,nas empresas, nos corações e mentes dos cidadãos. Respondê-la é abrir as portaspara um novo mundo, mais justo e solidário. O caminho, como no verso do poetaespanhol Antonio Machado, está sendo feito ao caminhar.

A inquietação dosmanifestantes das ruas do Oriente Médio, da Europa e do Chile não é diferentedaquela que está presente entre executivos e funcionários de empresas. Existealguma coisa de muito estragada no modelo de civilização, que já não pode maisser disfarçada por “perfumes”, ou seja, por ações contemporizadoras.

O que estáacontecendo com a vida da gente e as certezas que temos? Não é simples deexplicar e exige esforço para entender, mas é preciso encarar essa tarefa.Então, vamos lá.

Estamos vivendo duascrises combinadas e desiguais em intensidade e espaço temporal. Uma, de impactoplanetário-civilizatório, ainda tem suas consequências pouco conhecidas. Échamada de “mudanças climáticas”. A outra, de modelo de desenvolvimento –echamada de crise financeira–, emergiu com força em setembro de 2008, amainou umpouco em 2010, mas voltou em 2011, agora sob outros nomes –crise fiscal, dadívida pública, do orçamento, etc.–, mas uma mesma origem: as vultosas somasque os governos dos países centrais desembolsaram para salvar os bancos em2008.

Esse dinheiro nãovoltou para produção, a fim de gerar emprego, renda e impostos que reporiam asdespesas. Esse dinheiro –público– foi usado pelos bancos para recompor aespeculação financeira. Com isso, os governos agora não têm de onde tirarrecursos para honrar seus compromissos com credores, com aposentados, comprofessores ou com os usuários de serviços públicos essenciais, que são oscidadãos comuns. O reflexo dessa escassez está nas ruas do Oriente Médio e daEuropa.

Nenhum continente oupaís está imune a qualquer das duas crises. Em alguma medida, todos sofrerãocom elas, a menos que se entenda o que está ocorrendo e se consiga compreenderque não haverá saída para um país isoladamente. Ou toda a humanidade encontra asolução, ou as crises vão se repetir a cada ciclo, cada vez mais profundas emais dolorosas.

E a solução para aprimeira crise passa pelo entendimento da segunda, que é a de que há umaincapacidade estrutural de os mercados darem conta das demandas socioambientaise econômicas, bem como de autorregulação e de transparência.

A sociedade estádando mostras de que não aguenta mais um modelo de desenvolvimento que nãoresolve as demandas mais corriqueiras e que gera enorme desigualdade social. Onovo modelo desejado anda “suspirando no breu das tocas”, mas ainda nãoencontrou sua expressão mais acabada. Porque ele será uma construção coletivade bem-estar e felicidade ou, simplesmente, “não será”.

Tempo da utopia

As empresas têmavançado um pouco mais na discussão de outro padrão de negócios, aprofundandotambém o debate sobre o que deve ser a sociedade que suporte esses negócios.Mas, o tema é grande demais e não pode ficar circunscrito a nenhum segmento.

Definir novospadrões de consumo, produção, cultura e comportamento significa também discutiras novas fronteiras da liberdade individual, que, gostemos ou não, está nocerne do tamanho do impacto das crises. Abre-se, então, um novo espaço para autopia – aquele lugar ideal onde todos queremos viver. Construir um novo modelode desenvolvimento retoma o pensamento utópico relegado a segundo plano desdeque alguns sábios decidiram que a História tinha morrido e que o deus mercadodaria conta de tudo.

Como será essasociedade nova que começa a ser desenhada em lugares tão díspares quanto ainternet, a rua e o escritório de uma empresa? O consumo precisará ser encaradocomo um ato de cidadania, mais do que de satisfação de um “desejo” individual.E os produtos e serviços dele decorrentes deverá ser resultado de um processode diálogo entre cidadãos e agentes produtivos. Donde pode decorrer umademocracia participativa, calcada em processos de diálogo bastanteestruturados, capilarizados e abrangentes, para de fato dar voz e decisão atodos.

Os governos,portanto, serão muito mais agentes indutores de políticas públicas respaldadaspela sociedade. E as empresas, agentes operadores dessas políticas, em todos osníveis, suprindo as necessidades e demandas identificadas nesse processoconstante de diálogo.

Economia verde, inclusiva e responsável

O mundo terá umaoportunidade de ouro para ao menos começar a estabelecer os alicerces do novomundo: a Rio+20. Por isso, é tão importante a sociedade brasileira mobilizar-separa encaminhar propostas para esse encontro; mais do que isso, induzir asociedade civil dos demais países a também se mexer para trazer idéias epropostas inovadoras – utópicas, não importa. Precisamos voltar a sonhar,porque no sonho tornamos possível o impossível e, aí, quando acordamos, achamosos meios para realizá-lo, já dizia um certo barbudo de Viena.

Outro barbudo, estealemão, fez uma afirmação que cabe bem aos revoltosos de hoje: revolta “contra”ou “a favor” não é revolução, não muda, a menos que haja uma “teoria” que dêsustentação à mudança. Pois é disso que se trata a Rio+20: um momento para daralicerces mais firmes a uma teoria para mudar a economia – e a civilização – doséculo XXI.

Há um ponto departida, no caso do Brasil, que é a Plataforma para uma Economia Verde,Inclusiva e Responsável. Ela própria uma construção coletiva de várias empresasque vem sendo refeita à medida que novos parceiros resolvem assumi-la eenriquecê-la com suas próprias visões de mundo.

NdE.: Leia também: Guia – Doze Princípios doConsumidor Consciente 

Autor:Instituto Akatu
Editora: Instituto Akatu
Neste guia, o Instituto Akatu propõe 12 pequenos gestos que resultam em grandestransformações em prol do consumo consciente. Através do slogan “Consuma semconsumir o mundo em que você vive” e com uma linguagem acessível, o Akatuconvoca o leitor a adotar os princípios como parte de um cotidiano.
O guia convida a uma reflexão mais detalhada sobre as reais necessidades decompra, o posicionamento ativo para a melhoria dos serviços e a preferência porempresas que valorizam a responsabilidade social e implantam práticassustentáveis na linha de produção.