Crise humanitária síria é a maior dos últimos séculos

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Publicado segunda-feira, 7 de setembro de 2015 as 16:18, por: cdb

Por Miguel Fernández Martínez/Prensa Latina – de Damasco

A Síria enfrenta a pior crise humanitária já vista no mundo após a II Guerra Mundial, com cifras que superam os 4 milhões de refugiados e cerca de 11 milhões de deslocados em consequência da guerra. Ninguém mais se assombra ao ler manchetes que ressaltam os milhares de refugiados sírios que esperam um comboio para a Europa na fronteira entre Grécia e Macedônia, buscando chegar à Alemanha, França ou a qualquer nação que os acolha como asilados.

A guerra civil na Síria deixa um saldo de mais de 5 milhões de menores refugiados ou deslocados
A guerra civil na Síria deixa um saldo de mais de 5 milhões de menores refugiados ou deslocados

O terror, a miséria, e sobretudo a falta de segurança nos lugares ocupados pelos grupos terroristas do Estado Islâmico (EI) e a Frente Al-Nusra, entre outras organizações extremistas armadas presentes aqui, provocaram esta avalanche humana que coloca a Síria hoje entre os primeiros emissores de refugiados.

As cifras são assustadoras: quase 1 milhão e 200 mil sírios refugiados no Líbano, mais de 832 mil na Turquia, 612 mil na Jordânia, 217 mil no Iraque e 138 mil no Egito, sem contar outras dezenas de milhares espalhados pela Europa, América e outros rincões do mundo.

Deslocamentos

Após mais de 50 meses de guerra civil, a imposição de dogmas religiosos nas regiões ocupadas pelos jihadistas, a perda de moradias e propriedades e o risco permanente a morrer no fogo cruzado, milhões de sírios optaram por deixar seus territórios e buscar amparo em lugares seguros.

Mas estas não são as únicas causas destes deslocamentos em massa. Também respondem a manobras políticas desenvolvidas pelos estrategistas que organizaram esta guerra e que estão dirigidas a gerar o caos, a fragmentação do país.

Mas sobretudo, para debilitar as forças armadas do governo sírio de potenciais combatentes que reforçam a capacidade do exército e as milícias.

Segundo o intelectual francês Thierry Meyssan, fundador da Rede Voltaire, além das razões lógicas que impõem o conflito armado entre a população civil, esta onda de imigrantes é consequência da estratégia desenhada pelos Estados Unidos para a região e posta em prática a partir de 2001.

Em uma recente entrevista oferecida por Meyssan ao site sérvio Geopolitika, afirmou que “Washington já não tenta se apoderar do controle dos Estados, mas sim destruir os Estados e de impor um caos que torna impossível organizar algo sem contar com a vontade norte-americana”.

Para o analista galês, tudo se baseia na aplicação das teorias do filósofo Leo Strauss – paradigma teórico de muitos oficiais do Departamento de Defesa norte-americano -, que afirmam que “o verdadeiro poder não se exerce em uma situação de imobilidade mas, pelo contrário, mediante a destruição de toda forma de resistência”.

Outro olhar

Recentemente, a diretora executiva do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA), Ertharin Cousin, solicitou à comunidade internacional US$ 163 milhões para garantir o apoio aos refugiados sírios em diferentes países. Em particular, para atender as necessidades de aproximadamente 1,5 milhões que vivem amontoados na Jordânia, Líbano, Turquia, Iraque e Egito.

Segundo dados publicados por meios de imprensa e oferecidos pela Comissão espanhola de Ajuda ao Refugiado (CEAR), nestas ocasiões uma das principais vias de saída para os refugiados sírios é através das máfias migratórias.

Muitas famílias refugiadas – sublinha um relatório da CEAR – reúnem suas poupanças e chegam a pagar aos traficantes até 4 mil e 500 euros pela viagem de um único passageiro para a Europa, que inclui o bilhete de avião, o passaporte e a documentação falsa.

Explica que os refugiados costumam permanecer na Turquia vários meses esperando instruções da máfia para dali, e sem levantar suspeitas, voar a diferentes países da América Latina, como Colômbia e Brasil, ainda que os itinerários aéreos possam variar.

Este caos humanitário afeta, fundamentalmente, às crianças diante as condições médicas, alimentares, escolares e psicológicas que desaparecem e deixam um saldo de mais de 5 milhões de menores refugiados ou deslocados, e a alarmante cifra de 10 mil crianças mortas desde o início da guerra.

Também se impõe a miséria na qual se encontram as famílias dos deslocados e refugiados que obriga, principalmente aos menores, a se dedicar à mendicância, ou a buscar qualquer forma de subsistência.

Situação hoje

Esta é a situação que vive a Síria hoje, com uma população que se debate entre dois fogos, com mais de 240 mil mortos em consequência da guerra, e ante o olhar de países desenvolvidos que continuam apostando no terrorismo, como via rápida para alcançar seus propósitos hegemônicos e expansionistas. Enquanto as famílias sírias seguem buscando vias de escape, ainda que tenham que superar obstáculos, para além das balas.

O governo da Turquia ordenou em data recente a construção de um muro de concreto de três metros de altura em um trecho de oito quilômetros da fronteira comum com a Síria. Ainda que os porta-vozes do governo encabeçado pelo presidente Recep Tayyip Erdogan tenham se apressado em dizer que a medida foi adotada em consequência da recente onda de ataques terroristas no sul do país, está claro que o que busca é frear o fluxo migratório dos povoados sírios.

De outra parte, os traficantes de seres humanos lucram, com ganhos que apontam a quase US$ 500 mil por cada travessia clandestina pelo mar, um terrível cemitério que continua custando vidas inocentes.