Crianças e adolescentes e tráfico de drogas

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Publicado terça-feira, 27 de setembro de 2011 as 10:56, por: cdb

Envolvimento decrianças e adolescentes com o tráfico de drogas tem crescido em São Bernardo doCampo

O envolvimento decrianças e adolescentes de São Bernardo do Campo (SP) com o tráfico de drogastem crescido na cidade e gerado preocupação entre os especialistas da área. Sóno primeiro semestre deste ano, o Centro de Atendimento Socioeducativo daFundação Criança de São Bernardo do Campo atendeu 541 adolescentes nas medidassocioeducativas em meio aberto, ou seja, adolescentes que cometeram um atoinfracional e se encontram em liberdade assistida ou realizando prestação deserviços à comunidade. Desses, 210 foram apreendidos por tráfico de drogas,superando o número de adolescentes envolvidos com roubo (169 casos) e furto(38).

“Tem nos preocupadomuito a maior incidência e a maior presença de adolescentes envolvidos com otráfico de drogas. Antes, o crime que mais envolvia adolescentes era o roubo.Hoje, já temos um número maior com o tráfico”, disse Ariel de Castro Alves,presidente da Fundação Criança de São Bernardo do Campo (SP) e vice-presidenteda Comissão Nacional da Criança e do Adolescente da Ordem dos Advogados doBrasil (OAB), ao participar hoje (22) de um seminário que discutiu a situaçãodos menores em conflitos com a lei.

Apesar docrescimento no envolvimento com o tráfico entre os adolescentes que cometeramum ato infracional, os números de São Bernardo do Campo (SP) apresentaramdiminuição na taxa de reincidência no crime, em torno de 10%. Isso estárelacionado, segundo Alves, aos vários programas que são desenvolvidos nomunicípio com esses jovens, entre eles o Bolsa Formação e o Jovem Aprendiz.

“Temos também umtrabalho, que seria importante para evitar aquelas situações da Vila Mariana [ocaso das crianças levadas para uma delegacia após furtarem lojas e pedestres nobairro paulistano], que é ter educadores nas ruas abordando as crianças. Temos12 educadores que, todos os dias, vão para as ruas. Muitos deles já forammeninos de rua e têm mais facilidade de convencer [os demais]”, disse Alves.

Em todo o país, maisde 17,7 mil adolescentes cumprem medidas socioeducativas que restringem aliberdade de ir e vir (internação, internação provisória ou semiliberdade),segundo números levantados pela Secretaria de Direitos Humanos, em 2010. Umdesses adolescentes é M., de 15 anos de idade, que foi apreendido em flagrantepor roubar um carro.

“Eu via os bandidosda vila andando com carro e roupa, e eu também queria andar com carro, roupa,moto, dinheiro no bolso e ir para a balada gastar com os amigos. Isso é o queme levou a ir para o crime”, disse o adolescente.

M. ficou 35 dias na FundaçãoCasa. Segundo ele, isso o fez “mudar de vida” e nunca mais se envolver com ocrime. “Quero estudar, fazer uma faculdade, jogar bola, ser um jogadorprofissional”, declarou.

Para M., asatividades esportivas, trabalho e escola podem mudar o destino de outrosadolescentes como ele. “Os meninos ficam muito com a mente vazia. Só fica emcasa, não faz nada, nenhum esporte. Não trabalha. Só fica com a mente vazia.Isso leva os meninos para o crime”, disse.

Para Roberto daSilva, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) eex-interno da antiga Febem (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor), éfundamental oferecer alternativas à internação dos adolescentes.

“As varas daInfância e da Juventude deveriam priorizar a não criminalização doscomportamentos dos adolescentes. Muitos casos poderiam ser resolvidos numaaudiência admonitória [em que os magistrados estabelecem condições para ocumprimento do regime aberto]. Talvez falte – e aí seja um desafio para asociedade civil – criar mais alternativas à internação”, disse. Para ele, emvez da internação, o menor deveria receber assistência, orientação e apoio deorganizações não governamentais, projetos ou programas para evitar que volte aocrime.

Para Maria StelaGraciani, professora do curso de educação da Pontifícia Universidade Católicade São Paulo (PUC), as universidades têm um papel fundamental para garantir queesses programas e projetos tenham sucesso e contribuam para que o menor nãovolte ao crime. “Há necessidade que as universidades, responsáveis pelaformação daqueles que vão julgar as situações ou que vão formar a consciência ea conscientização dos atores sociais, forneçam uma sustentabilidade qualificadapara poder trabalhar com a delinquência”.