CPI da Petrobras: doleira quer acordo de delação premiada

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Publicado terça-feira, 12 de maio de 2015 as 11:09, por: cdb
CPI da Petrobras
A doleira que presta depoimento no Foro da Seção Judiciária do Paraná foi presa em flagrante na madrugada de 15 de março de 2015

A doleira Nelma Kodama disse, na manhã desta terça-feira, à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras que está negociando um acordo de delação premiada com a Justiça Federal.

– Estou disposta a colaborar com a CPI, desde que isso não atrapalhe meu acordo de colaboração em curso – disse.

Kodama é acusada de chefiar esquema de lavagem de dinheiro que envolvia a abertura de empresas de fachada e operações de câmbio no exterior. Ela foi condenada por envolvimento em 91 operações irregulares de instituição financeira, lavagem de dinheiro e corrupção. Ela também é acusada de corromper um ex-gerente do Banco do Brasil para realizar operações ilícitas por meio da casa de câmbio Da Vinci.

Nelma Kodama foi presa em flagrante na madrugada de 15 de março do ano passado quando tentava embarcar para Milão, na Itália, com 200 mil euros escondidos na calcinha.

– Meu papel de compra e venda de moedas era mais ligado a importações. Quando um importador compra uma mercadoria na China, por exemplo, parte do pagamento é feito pelo Banco Central e ele usa o doleiro para pagar o que é por fora, sem impostos, que geralmente é 60% do total – ela explicou.

– Eu não via que estava fazendo nada errado. Era como compra e venda de dólares. A operação feita do doleiro acontece por causa dos impostos envolvidos no pagamento de empresas no exterior. Eu não achava isso errado porque achava os impostos muito altos – alegou, ao responder perguntas do relator da CPI, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ).

Nelma Kodama se recusou a dizer à CPI quem era o “comandante” do esquema de operações irregulares de câmbio do qual fazia parte. A pergunta foi feita pelo deputado Bruno Covas (PSDB-SP), um dos sub-relatores da CPI. “Vou me reservar o direito de permanecer calada”, respondeu.

– Mas é um agente político? – perguntou o deputado.

– Ele já foi preso? – insistiu.

– Não – respondeu a doleira.

Nelma Kodama disse que nunca operou no esquema de desvio e lavagem de dinheiro da Petrobras e que não atuou no financiamento de partidos políticos.

Três ex-deputados acusados de participarem do esquema de corrupção na Petrobras investigado pela Operação Lava Jato. Luiz Argolo, André Vargas e Pedro Corrêa estão presos em Curitiba, no Paraná, prestam depoimento a Comissão.

Integrantes da CPI estão no Paraná, desde segunda-feira, para ouvir os ex-parlamentares e os doleiros Carlos Habib e Nelma Kodama, além de René Pereira (ligado ao doleiro Alberto Youssef).

Youssef

Na segunda-feira, Alberto Youssef disse à CPI da Petrobras acreditar que não havia superfaturamento de preços nos contratos da estatal. Ao responder pergunta do deputado Celso Pansera (PMDB-RJ) sobre a origem dos recursos, ele disse que provavelmente vinha da taxa de lucro das empresas. Youssef disse que, muitas vezes, o percentual de propina (que ele chama de “comissionamento”) de 1% acabou reduzido a pedido dos empresários.

– Na minha concepção, não havia superfaturamento. Muitas vezes, os empreiteiros pediam que o comissionamento fosse reduzido porque eles não estavam dando conta de fazer a obra com esses pagamentos – disse.

– Por isso, muitas vezes, o comissionamento de 1% foi reduzido – concluiu.

Youssef ainda citou nomes de vários políticos que, segundo ele, receberam recursos do esquema de financiamento de campanha originado de propinas pagas por empresas contratadas pela Petrobras.A maior parte dos políticos que ele afirma ter financiado, direta ou indiretamente, pertence ao PP – partido para o qual Youssef confessou ter operado.

Youssef disse que não tratou pessoalmente com a maioria dos políticos, mesmo aqueles que ele financiou. Em resposta ao deputado Júlio Delgado (PSB-MG), o doleiro disse que, na maior parte das vezes, os nomes e valores destinados aos beneficiários eram repassados a ele pelos líderes do PP: Nelson Meurer, Mário Negromonte e João Pizzolatti.

Ele diferenciou os políticos que conhecia dos que não conhecia. Ele disse ter financiando algumas pessoas que não conhecia e não ter feito o mesmo para algumas que conhecia, já que foi apresentado a muitos políticos na casa do ex-líder do PP João Pizzolatti, em Brasília.Youssef admitiu que algum político pode ter recebido recursos destinados por ele ao partido.

Youssef disse, por exemplo, que não conhece o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Mas afirmou ter feito pagamento destinado a ele, por intermédio do empresário Fernando Soares, e atribuiu a informação ao empresário Júlio Camargo. De acordo com Camargo, o dinheiro foi pago para que a Câmara não questionasse o contrato da Toyo com a Petrobras para o aluguel de sondas. O parlamentar nega as acusações.
O doleiro falou o mesmo da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR).

– Não conheço pessoalmente, mas fiz repasses – disse.

Além dos líderes do PP, os políticos que ele afirma ter ajudado com recursos, direta ou indiretamente, foram os seguintes: Aguinaldo Ribeiro, Ciro Nogueira, Dilceu Sperafico, Eduardo da Fonte, José Otávio Germano, Lázaro Botelho, Luis Carlos Heinze, Luiz Fernando Farias, Renato Molling, Roberto Brito, Roberto Balestra, Waldir Maranhão, José Mentor, Lindberg Farias, Fernando Collor, Fernando Bezerra, Aline Corrêa, João Leão, Pedro Corrêa, Pedro Henry, Cândido Vaccarezza e Luiz Argôlo..

Dos sete depoentes convocados para prestar depoimento ontem, cinco optaram por ficar calados e não responder as perguntas dos deputados. Apenas Youssef e a ex-funcionária da doleira Nelma Kodama, Iara Galdino, aceitaram falar.