Coréia do Norte permanece irredutível nas conversações em Pequim

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Publicado quinta-feira, 28 de agosto de 2003 as 13:18, por: cdb

O segundo dia de conversações sobre a crise norte-coreana realizadas em Pequim terminou nesta quinta-feira sem qualquer acordo sobre como desativar a ameaça de uma eventual guerra nuclear que paira sobre o nordeste da Ásia.

Os delegados da Coréia do Sul, Estados Unidos, China, Rússia e Japão tentaram buscar desesperadamente uma fórmula para acalmar o regime de Pyongyang, que teme uma invasão americana como a do Iraque, e garantir, ao mesmo tempo, uma península coreana livre de armas nucleares.

A Coréia do Norte se mostrou irredutível e reiterou sua exigência a Washington de um pacto de não-agressão no primeiro dia. O delegado americano, o subsecretário de Estado James Kelly, rejeitou, por sua vez, esta possibilidade, segundo fontes japonesas.

A sessão matutina desta quinta aconteceu a portas fechadas na casa de hóspedes de Diaoyutai por quase quatro horas, depois da qual as delegações da Coréia do Sul, Japão e EUA se encontraram na embaixada americana de Pequim.

Um porta-voz desta embaixada confirmou que “não haverá nenhuma reunião bilateral formal com os norte-coreanos”, ponto sobre o qual Washington é bastante reticente.

A fonte minimizou o encontro informal desta quarta entre Kelly e seu homólogo norte-coreano, Kim Yong-il, o primeiro contato direto em quatro meses entre ambos os países. Já o vice-ministro russo dos Assuntos Exteriores, Alexander Losyukov, se reuniu em separado com o emissário norte-coreano e com Kelly.

O Japão teve ainda a possibilidade de discutir bilateralmente com a Coréia do Norte o assunto dos seqüestros de seus cidadãos, cuja resolução é vital para a opinião pública nipônica.

— Exigimos que as famílias dos cinco seqüestrados possam se reunir no Japão — declarou nesta quinta-feira o porta-voz da delegação japonesa, Yasuo Fukuda.

No ano passado, Pyongyang admitiu ter seqüestrado 13 japoneses nos anos 70 para treinar seus espiões e, recentemente, permitiu que cinco deles voltassem para o Japão, mas não para suas famílias.

O vice-ministro chinês dos Assuntos Exteriores, Wang Yi, pode apresentar nesta sexta um comunicado, no qual os delegados concordem em voltar a se reunir para dar continuidade às conversações, o que seria resultado da pressão diplomática exercida pela China sobre os EUA e a Coréia do Norte para que resolvam suas diferenças.

A China se encontra em uma posição bastante desconfortável nesta crise por ser o único aliado que resta ao regime comunista – com o qual lutou na Guerra da Coréia (1950-1953) contra as tropas sul-coreanas apoiadas pelos americanos – e por querer atuar como uma potência responsável diante da comunidade internacional.

Nas conversações, ainda não se esclareceu se Pyongyang tem, ou não, armas nucleares, ou se está em condição de criá-las em breve, como alega a Coréia do Norte.

O eventual desenvolvimento de armas nucleares permitiria ao regime reduzir suas despesas militares e dedicá-las a outras áreas, além de chantagear os países da região em troca de ajudas econômicas, em forma de comida e energia, dizem os especialistas.

Com um exército de um milhão de soldados, 1.600 aviões obsoletos, um arsenal de 700 mísseis, e um programa de desenvolvimento de armas biológicas e químicas iniciado na década de 60, as despesas militares engolem um terço do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

A crise, deflagrada em outubro de 2002, pôs em ponto morto os tímidos esforços de abertura do ditador Kim Jong-il, que pretendia aplicar em seu país algumas das fórmulas econômicas ensaiadas com tanto sucesso pela China, e que pôde conhecer em primeira mão durante uma visita secreta à metrópole financeira de Xangai em 2000.

A desconfiança é o principal obstáculo entre Pyongyang e Washington, que se acusam mutuamente de descumprir o Acordo de 1994, segundo o qual os EUA se comprometeram a enviar 500.000 toneladas de petróleo por ano e construir dois reatores de água