Conflito no Oriente Médio chega distorcido ao público por causa da mídia

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Publicado segunda-feira, 10 de setembro de 2001 as 15:41, por: cdb

Brian Whitaker, do Guardian (brian.whitaker@guardian.co.uk), um dos mais importantes jornais do mundo, faz aqui uma breve e interessantíssima análise da cobertura feita pela mídia internacional dos conflitos em Israel e na Palestina. Ele mostra como a escolha de certos verbos e construções gramaticais acabam criando um quadro interpretativo totalmente tendencioso e unilateral (no caso, os palestinos são sempre descritos como aqueles que “atacam” e os israelenses como os que “respondem”, como se bastasse os palestinos deixarem de “atacar” para que a paz voltasse a reinar na região). A mídia quase nunca ressalta, por exemplo, que a ocupação ilegal das colônias israelenses está na raiz do conflito, assim como descreve de maneira totalmente arbitrária os cenários do conflito: “Uma notícia descreve Hebrom como “uma cidade dividida”, quando, de fato, 99.8% dos seus habitantes são árabes. (Jerusalém, por outro lado – com dois terços da população judaica e um terço de árabes – é constantemente descrita pelos israelenses como “(não-dividida).” Vamos ao texto:

“Uma história rotineira do Oriente Médio: “Palestinos lançaram pela madrugada três bombas contra a colônia habitacional Eile Sinai no extremo norte da Faixa de Gaza. As tropas israelenses responderam com bombardeios de tanques, destruindo um posto de fronteira palestino e atingindo duas casas”. Essa notícia, que acaba de sair na BBC, é familiar não somente pelos eventos que descreve, mas também pela maneira como os descreve: os palestinos atacam e os israelenses “respondem”. Ações militares por parte dos israelenses são sempre “resposta” a alguma coisa, mesmo quando eles atacam primeiro. Se não foram efetivamente atacados, é uma “resposta” a ameaça a sua segurança.

‘Resposta’ é uma palavra muito útil. Fornece uma razão pronta para as ações israelenses e elegantemente descarta demandas por maiores explicações. Diz: ‘Não nos perguntem por que fizemos isso, perguntem à outra parte’. A questão não é culpar os israelenses pelo uso desse expediente; a questão é se os jornalistas deveriam deixar que ele moldasse suas notícias do conflito.

Representar o conflito como uma série de ações palestinas e de respostas israelenses é perigoso por várias razões. Primeiro, reforça o argumento israelense de que tudo ficará bem somente se os palestinos encerrarem sua violência. Isso poderia ser verdadeiro para muitos israelenses, mas não para os palestinos. Segundo, isso incide – através de repetição constante – em um quadro enganoso do conflito como um todo. A violência não é uma série de ações e reações discretas, mas um ciclo (ou espiral) no qual as ações de ambos os lados alimentam-se mutuamente. Terceiro, enquanto as ações israelenses são noticiadas como uma “resposta” que se auto-justifica, as ações dos palestinos raramente são situadas dentro do contexto correto ou atribuídas a um motivo compreensível.

Obviamente, há um limite para o que pode ser dito no relato de uma notícia de 300-400 palavras, e alguns jornalistas argumentarão que seu ofício principal é noticiar os eventos do dia, não explicar seu contexto. Mas não estou sugerindo que eles deveriam transformar suas notícias numa conferência de história; apenas que deveriam pelo menos sugerir num contexto e num reconhecimento mais amplo que os palestinos podem Ter algumas queixas legítimas. Fazer isso não é difícil nem representa desperdício de palavras.

Alguns informes das agências de notícias, por exemplo, costumam fazer habitualmente uma referência de seis palavras à ‘luta palestina contra a ocupação israelense’. A ocupação israelense jaz na raiz do conflito – e ainda assim, na maioria dos casos, os jornalistas esquecem de lembrá-la a seus leitores.

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