Comunidade em Botafogo comemora quatro anos de pacificação

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Publicado quarta-feira, 19 de dezembro de 2012 as 10:41, por: cdb
Mais de 400 mil pessoas livres da criminalidade
Mais de 400 mil pessoas livres da criminalidade

Crianças como Lucas Nunes, de 4 anos, estão tendo a chance que jovens como Verônica Moura, de 28, não tiveram: crescer longe da violência e perto da paz. Com a idade da pacificação, Lucas faz parte da geração que nasceu na tranquilidade das comunidades do Rio. Morador do Santa Marta, primeiro morro a ganhar uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), o pequeno já sabe o que quer ser quando crescer, policial como os que atuam em sua comunidade, que desde 19 de dezembro de 2008, dia da retomada do Estado, não registra um único confronto.

 

– A pacificação abre uma nova perspectiva de futuro para os jovens, de paz e desenvolvimento. A paz devolve às crianças o direito de poder brincar nas ruas sem risco. Elas também podem ir às aulas sem medo e conseguem dormir sem ouvir tiros. Eu tenho um sonho: no futuro, quando os pais ou avós das crianças dessas comunidades contarem para elas que, antigamente, eles conviviam com tiroteios e balas traçantes todo dia, elas respondam “não é possível! Eu não acredito” – disse o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.

 

Para a mãe do pequeno Lucas, Marinalva Nunes, saber que seu filho está crescendo sem saber reconhecer o som de um tiro ou conviver com bandidos armados e com consumidores de drogas é um antigo sonho. Antes da paz, ela e as irmãs de Lucas, Vitória, de 8 anos, e Bia, de 12, tinham que se esconder debaixo da cama para se proteger dos tiroteios, e já deixaram de ir à escola por conta dos conflitos.

 

– Fico muito sossegada em saber que o Lucas faz parte da geração da pacificação, diferente das minhas filhas mais velhas. A vida era mais complicada. Uma vez, não consegui abrir a porta de casa por causa do tiroteio. O Lucas nasceu um mês antes da chegada da paz, e lembro muito bem do dia em que segurando ele, recém-nascido, nos braços andei pela comunidade tranquilamente – afirmou.

 

Nascida no Santa Marta, Verônica lembra bem dos dias em que convivia com os conflitos na comunidade. Diferente de Lucas e do filho Gabriel, também de 4 anos, ela teve uma infância marcada por fatos violentos. Hoje, Verônica é guia turística da comunidade, que recebe cerca de 10 mil turistas por mês fora da alta temporada em pontos turísticos como a Laje do Michael Jackson e o Plano Inclinado.

 

– Minha vida mudou completamente: agora tenho uma profissão. Meu filho vive em uma realidade muito mais feliz. A comunidade está muito mais organizada, com mais infraestrutura urbana – explicou.

 

A confiança nas ações dos policiais da UPP é outra referência no Santa Marta. Os cerca de seis mil moradores criaram uma relação de parceria com os profissionais da Unidade de Polícia Pacificadora, que oferece à população aulas de caratê e música clássica. Grávida de nove meses, Vanessa da Silva Garcia contou com a ajuda dos PMs do local para ir ao hospital e ter o pequeno Gabriel, hoje com 7 meses.

 

– Minha bolsa estouro, estava sozinha em casa e os policiais da UPP me ajudaram. Me levaram para o hospital e isso foi maravilhoso. É tão bom poder contar com eles em todas as situações. Os policiais se envolvem com a comunidade, por isso sinto muita segurança de criar meu filho Gabriel e a minha filha Raiani, de 7 anos, aqui no morro. São novos tempos – disse.

 

Os números da paz

 

Palco de constantes conflitos entre policiais e criminosos, o Santa Marta vive tem dados emblemáticos. No primeiro semestre deste ano, a UPP da comunidade fez parte da Área Integrada de Segurança Pública que registrou a maior redução de criminalidade em todo o estado, de acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP).

 

– Há 4 anos, houve uma redução de 28% na letalidade violenta. Desde que a Unidade de Polícia Pacificadora foi implantada não tivemos a informação de nenhum homicídio no Santa Marta. Outro dado interessante é que não temos nos deparado mais com bandidos. Essas estatísticas se enquadram na missão da UPP que é preservar vidas e garantir a liberdade da população, o direito de ir e vir – explicou o comandante da UPP do morro, tenente Gabriel Cavalcante Lima.

 

Mais de 400 mil pessoas livres da criminalidade, conquistas sociais, 250 vidas foram em 150 comunidades, redução de 78% na taxa de mortes violentas e diminuição de 98% em autos de resistência. Os números de 2008 a agosto deste ano divulgados por pesquisadores do Laboratório de Análise de Violência da Universidade do Estado do Rio (Uerj) atestam o sucesso da pacificação, que está sendo exportado para países como o Panamá. São 28 UPPs espalhadas pelo Rio de Janeiro.