Começa julgamento de crime de roubo de bebês durante ditadura militar

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Publicado quarta-feira, 24 de agosto de 2011 as 16:11, por: cdb

Teve início hoje (24), às 10h, o primeiro julgamento oral e público por crime de lesa humanidade ocorrido durante a ditadura militar na província argentina de Entre Ríos. Trata-se do caso Hospital Militar de Paraná, em que seis militares são acusados do sequestro, em 1978, dos filhos de Raquel Negro, um casal de gêmeos recém-nascidos. 50 testemunhas participam do julgamento, que se estenderá até sexta-feira (26), no Tribunal Oral Federal de Paraná, capital de Entre Ríos.

Raquel Negro foi sequestrada junto com o marido, Tulio Valenzuela, no dia 2 de janeiro de 1978. A militante política ficou detida em centros clandestinos e, em março, foi levada ao Hospital Militar de Paraná para dar à luz.

Os filhos foram retirados da mãe. Deixada em um orfanato, a menina foi adotada e passou a se chamar Sabrina Gullino. Recuperou a identidade apenas em dezembro de 2008. Já o menino, que nasceu com complicações cardíacas e respiratórias, está desaparecido até hoje, motivo pelo qual continuam as investigações.

Os acusados do crime são o coronel Pascual Oscar Guerrieri, o militar e advogado Juan Daniel Amelong, o ex-membro da inteligência militar, Walter Salvador Dionisio Pagano, os militares aposentados Jorge Alberto Fariña e Marino Héctor González, e o médico militar Juan Antonio Zaccaría, à época chefe da terapia intensiva do Hospital Militar. Eles respondem por subtração de menores de dez anos e supressão de seus estados civis. Encontram-se presos, à disposição da justiça federal argentina.

O caso foi levado à Justiça pelo filho de Raquel e meio irmão de Sabrina, Sebastián Álvarez, junto com a Associação das Avós da Praça de Maio, o Grupo H.I.J.O.S e a Secretaria de Direitos Humanos da Nação.

Expectativa

Em comunicado, o Grupo H.I.J.O.S caracterizou o julgamento como “histórico” e pediu que todos compareçam às portas dos Tribunais Federais, localizados na rua 25 de maio, 256, Paraná. No local, os ativistas realizam um festival de música popular para marcar o julgamento.

“Faz mais de 30 anos que esperávamos por isto. A possibilidade de justiça. A possibilidade de dizer-lhes na cara que são assassinos, e que merecem a prisão, para sempre”, declaram.

Fazem ainda um apelo às pessoas que trabalharam no Hospital Militar entre os anos de 1977 e 1978, ou que conheçam funcionários do período, para que se comuniquem com o grupo, contribuindo com as investigações sobre o filho de Raquel. As denúncias podem ser anônimas e o contato deve ser feito pelo e-mail hijos.identidad@yahoo.com.ar.

Militante do grupo, Julián Froidevaux destaca também que o julgamento do caso abrirá caminhos para as investigações de outros bebês desaparecidos na maternidade clandestina montada no Hospital Militar de Paraná.