Com plantio próximo, produção de soja caminha para safra recorde no Brasil

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Publicado sábado, 12 de setembro de 2009 as 15:22, por: cdb

Às vésperas do início do plantio de soja em Mato Grosso, que marca a largada da safra nacional, produtores nas principais regiões do Brasil têm vários motivos para ampliar a área semeada com a oleaginosa em 2009/10, o que resultaria em uma produção recorde de mais de 60 milhões de toneladas, de acordo com agricultores e analistas.

Entre as razões estão os baixos estoques brasileiros de soja, a demanda da China continuamente forte, os preços do milho e do algodão frágeis, permitindo avanço da oleaginosa com custos mais baixos em áreas dessas culturas, e a tradicional liquidez do principal produto do agronegócio do país, que colheu 57 milhões de toneladas do grão em 08/09.

O recorde de produção de soja no Brasil foi obtido na safra 2007/08, com 60 milhões de toneladas.

Mas há um porém, além do câmbio, um fator negativo já rotineiro para a agricultura brasileira: os Estados Unidos devem colher em 09/10 uma safra recorde de mais de 88 milhões de toneladas, e a Argentina, terceiro produtor global atrás dos EUA e do Brasil, também pode ter uma grande colheita, o que limitaria um avanço maior da produção nacional.

– O milho está com um cenário muito ruim, os preços abaixo dos custos de produção… Já a soja, apesar da perspectiva de preços mais baixos, porque vai ter uma grande produção mundial, o produtor está apostando, ela ainda dá uma rentabilidade – afirmou a economista Gilda Bozza, da Federação da Agricultura do Paraná (Faep), segundo maior Estado produtor no país.

Pela primeira estimativa do governo paranaense, se o clima ajudar, o Estado poderia colher uma safra recorde superior a 13 milhões de toneladas, com os produtores deixando o milho de lado na primeira safra, para plantá-lo na safrinha (inverno).

Segundo estudo da Faep, a soja está entre os únicos três produtos agrícolas do Paraná que não apresentou queda de preço entre janeiro e agosto deste ano, subindo 4% na comparação com o mesmo período do ano passado, apesar da crise internacional.

Atualmente, é possível “comprar” quase três sacas de 60 kg de milho com uma de soja no Paraná.

– Quando a relação é acima de duas sacas, é favorável à soja – destacou Gilda, comentando o aumento de mais de 250 mil hectares no plantio da soja no Paraná, previsto pelo governo.

Nesta sexta-feira, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) elevou a sua estimativa de safra de soja do Brasil em 2 milhões de toneladas, para 62 milhões, citando um crescimento de soja em áreas de milho.

Na próxima terça-feira, termina em Mato Grosso o chamado “vazio sanitário”, que delimita o período que proíbe o plantio de soja no maior produtor do Brasil, com vistas a prevenir o ataque da ferrugem asiática.

E com um bom regime de chuvas neste ano, a semeadura poderá dar largada na semana que vem em Lucas do Rio Verde e Sapezal, os dois municípios mato-grossenses que primeiro põem as plantadeiras para funcionar na safra de verão do Brasil.

Preliminarmente, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), ligado aos produtores, prevê um aumento de 150 mil hectares para o plantio de soja em Mato Grosso, embora alguns agricultores mantenham cautela.

– A área que está prevista para aumentar é em virtude da redução da área de algodão, que vai se reverter para a soja. Tem também alguma área ou outra de pastagem que está sendo incorporada para a agricultura – afirmou Glauber Silveira, presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja).

– Agora, tem uma incerteza grande em relação ao preço futuro da soja, há uma expectativa ruim (pela grande safra dos EUA), e pode ser que alguns produtores revejam alguma área ou outra – acrescentou ele, lembrando que é de “apenas” 20% o percentual da safra futura já comercializada antecipadamente com preços travados.

De qualquer forma, o Mato Grosso, na safra de verão, não tem grandes alternativas à soja, e o algodão está em piores condições do que a oleaginosa –em 08/09, o Estado produziu quase 18 milhões de toneladas do grão.

RS

– Nos últimos quatro anos, eu estive pessimista sobre a capacidade do Brasil de aumentar a produção de soja. Para 2010, eu estou otimista com a capacidade da América do Sul de elevar a safra – disse o analista Kory Melby, em Goiás, que acredita em uma safra nacional entre 62 e 63 milhões de toneladas, lembrando que a temporada 08/09 tinha potencial para 61 milhões milhões, não fosse a seca no Sul.

No Rio Grande do Sul, a soja também deverá ganhar área de milho, segundo o presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Carlos Sperotto.

– Os preços do milho não reagiram, persiste a posição de uma migração do plantio para a soja por conta da não solução por parte do governo de políticas compatíveis com custo de produção – destacou Sperotto, lembrando que os produtores estão “estocados” com milho.

Ele disse, no entanto, que as dívidas do setor ainda limitam uma safra maior de soja.

– Não existe numerário para fazer um bom plantio, há contratos (de financiamento) não quitados – acrescentou, fazendo referência ao fato de muitos produtores não poderem acessar novas linhas oficiais de crédito enquanto não resolverem pendências anteriores.