Colômbia negocia cessar-fogo secreto com paramilitares

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Publicado segunda-feira, 25 de novembro de 2002 as 15:35, por: cdb

O governo da Colômbia está realizando negociações secretas em uma tentativa de selar a paz com o maior grupo paramilitar do país, as AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia).

A revelação foi feita por funcionários do governo depois que uma revista colombiana publicou reportagem afirmando que o secretário de paz da Colômbia, Luís Carlos Restrepo, teria se encontrado com líderes das AUC, graças à intermediação de bispos católicos.

Segundo a agência de notícias Associated Press, o cardeal Pedro Rubiano, presidente da Conferência Nacional dos Bispos da Colômbia, afirmou que a AUC pediu aos bispos que marcassem reuniões nas áreas em que o grupo é mais ativo.

A imprensa local noticiou que Carlos Castano, líder das AUC, teria concordado com um cessar-fogo de dois meses, começando em 1º de dezembro, como gesto de boa vontade.

Desmobilização e anistia

Os relatos dão conta de que um anúncio formal sobre o acordo pode ser feito nos próximos dias. As negociações podem levar à desmobilização dos 9 mil homens das tropas da AUC e à anistia dos líderes das milícias.

Analistas dizem que o cessar-fogo poderia provocar uma mudança dramática no equilíbrio de forças internas na Colômbia.

Em 38 anos de guerra civil, o país já perdeu 3,5 mil vidas, a maioria de civis, no conflito entre rebeldes marxistas, tropas paramilitares de direita e forças do governo.

O ministro do Interior, Fernando Londono, reconheceu que houve “contato” entre os dois lados, mas acrescentou que o presidente colombiano, Álvaro Uribe, “reserva-se o direito de conduzir o processo”, de acordo com a agência de notícias France Presse.

O governo Uribe tem se caracterizado por uma “linha-dura” na relação com os grupos armados e, apesar de estar aberto a negociações, exige o cessar-fogo como condição.

No entanto, o correspondente da BBC na Colômbia, Jeremy McDermott, diz que há temores de que, em várias áreas do país, se os paramilitares se desarmarem, serão apenas substituídos por guerrilhas inimigas.

“Se os paramilitares derem esse passo e outros não, veremos um massacre dos colombianos”, disse o cardeal Rubiano.

Erradicação

As AUC foram formadas para erradicar as guerrilhas marxistas na Colômbia, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN).

Financiados pelos chamados “barões” das drogas e com suspeitas de conexões com oficiais de linha-dura no Exército colombiano, as AUC executaram massacres de simpatizantes das guerrilhas de esquerda, políticos e jornalistas.

O líder do grupo, Castano, foi recentemente indiciado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos por acusações de tráfico de cocaína, e está sendo procurado pelas autoridades americanas para extradição.

Ele já foi condenado in absentia pelas autoridades colombianas a 22 anos de prisão.