Cobertura da mídia sobre questões de gênero, raça e etnia

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sexta-feira, 26 de agosto de 2011 as 10:46, por: cdb

Por Gleiceani Nogueira e Verônica Pragana

Asacom

Jornalistaavalia cobertura da mídia sobre as questões de gênero, raça e etnia

Uma imprensaética, livre e independente, que respeite a diversidade brasileira, só serápossível quando a mídia romper com todo preconceito e discriminação com quetrata as populações historicamente excluídas, em especial, os negros eindígenas. Para falar sobre esse assunto, as jornalistas Gleiceani Nogueira eVerônica Pragana, da Assessoria de Comunicação da ASA (Asacom), conversaram comCleidiana Ramos, repórter do jornal A Tarde, de Salvador, especialista emestudos étnico-africanos e blogger do Mundo Afro, especializado nas questões deidentidade, religiosidade e cultura afro-brasileira.

Cleidiana ministrou o Curso Gênero, Raça e Etnia para Jornalistaspromovido pela ONU Mulheres e Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), comparceria do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco. O curso foi realizado naquarta e quinta-feira (17 e 18) da semana passada, na sede da ONG SOS Mulheres,no Recife.

Na entrevista, Cleidiana reflete sobre a forma como as mulheres, emespecial, as do campo, são retratas pela imprensa, e critica os meios decomunicação pelo não reconhecimento das populações tradicionais como produtorasde conhecimentos. Para ela, a mídia comercial precisa passar por um “processode descolonização do conhecimento” para, a partir daí, aceitar e reconhecer osaber popular e não só validar o conhecimento científico. A forma como osmovimentos sociais se relacionam com a grande mídia, buscando espaços em mídiasalternativas para falar com a sociedade, também foi assunto da conversa.Confira:

Asacom – De que forma os meios de comunicação retratam a mulher, emespecial, a mulher do campo?

Cleidiana – Quando as mulheres são tratadas, porque o que a gente tem é ainvisibilidade [das mulheres], elas são tratadas geralmente de uma formaestereotipada e a gente fala estereótipo no sentido amplo do termo. No caso dasmulheres do campo, elas não são lembradas. Normalmente quando falamos de umamulher envolvida no movimento sem-terra, se a gente a vê de camiseta e dejeans, acha estranho porque não é a imagem que a gente guardou da mulher docampo. A mulher do campo é aquela cabisbaixa, silenciosa, que obedece ao maridoem tudo. É essa a imagem que a gente tem, que os meios culturais, cinema, TV,rádio, perpetuaram e massificaram. Então a gente [os meios de comunicação]não fala, a gente silencia na maioria das vezes.

Asacom – Em que medida esse retrato da mulher pela sociedade e pelamídia contribui para a violação dos direitos dessa população?

Cleidiana – Eu sempre achei que a ignorância, no sentido do desconhecimento, tem umpapel muito forte. Em todas as questões de intolerância, seja religiosa, dediversidade sexual, ela tem um forte componente do desconhecimento, de você nãosaber do que se trata. Então, quando alguém acusa as religiões de matrizafricana de serem cultuadoras e propagadoras do diabo, isso é de um nível deignorância absurdo. Pelo seguinte: nenhuma dessas religiões tem a dimensão demal no sentido dual da cultura judaica cristã. Para as religiões de matrizesafricanas e para os próprios cultos sediados na África o mal nunca foipersonalizado, nem personificado, nem atribuído a uma força externa porque elestrabalham muito na dimensão de que você é dono do seu próprio destino. Da mesmaforma quando você não entende as mulheres, a luta delas, você não entende aprópria contextualização, o que é que fez elas assumirem chefias de família, oque faz com que as mulheres estejam cada vez mais no mercado de trabalho. Aprópria relação de trabalho que as mulheres têm com as suas trabalhadorasdomésticas, elas não raciocinam sobre isso muitas vezes. E, na maioria dasvezes, só é possível ir para o mercado de trabalho porque tem a outra mulherque segura a sua casa porque a gente pode ascender como for, mas aadministração da casa e o cuidado com os filhos continua atribuído para nósmulheres. O trabalho doméstico é talvez o trabalho que é tratado da pior formapossível. Muitas dessas mulheres trabalhadoras domésticas são mulheres docampo, que migraram para a cidade. E a gente não reflete isso. Então é umacoisa muito do desconhecimento, da ignorância.

Asacom – Da mesma forma que as mulheres, as populações tradicionais, aexemplo dos quilombolas e índios, são alvo de uma abordagem da mídia que criminalizaas suas lutas. Como lutar contra isso?

Cleidiana – Eu acho que os próprios movimentos estão respondendo a essa situação. Eo que acho mais fantástico é que eles estão começando a compreender essacultura da mídia e estão sabendo trabalhar com isso, sabendo que senão aparecenela de uma forma, aparece de outra, inclusive, virando as costas. Eles nãoestão perdendo muito tempo em cobrar que essa mídia os dê espaço. Eles fazem aspróprias redes. É por isso que a gente tem as rádios quilombolas e as rádiosindígenas. Eles estão falando não só para eles, mas para a sociedade como umtodo. Então me parece que eles estão começando a compreender que é possívelfazer o uso positivo dessa mesma mídia, que tantas vezes os criminalizou. Equando eles chegam para falar com essa mídia tradicional, eles já aprenderamtanto, que estão falando com muita propriedade, inclusive para cobrar e ter odireito de dizer: “Eu não quero falar com você!”. Porque eles têm esse direito.Às vezes, nós, jornalistas, ficamos num patamar muito arrogante. Todo mundoquer falar com você. E não é bem assim. As comunidades têm o direito de dizerque não querem falar. Se a gente notar bem, já não existe aquela queixa: “Ah, agente vai contestar o que o Jornal Nacional deu ontem”. Não! A gente temexemplos de várias cartas de relatos de violência que tomaram proporção depoisque circularam meses pelas redes sociais. E só depois que a grande mídia setocou. Então, hoje, esse entendimento e essa apropriação desses instrumentos éextremamente positivo.

Asacom – A mídia tem como referência o conhecimento acadêmico ecientífico para validar os conteúdos jornalísticos. Por outro lado, oconhecimento popular não é reconhecido como fonte. O que isso revela sobre oolhar dos meios de comunicação?

Cleidiana – Os meios de comunicação de modo geral precisam passar pelo processo quee a gente tá (sic) chamando de descolonização do conhecimento. A gente seacostumou a achar que o conhecimento só é produzido pela academia. Aí quandovocê vai ver, por exemplo, a variedade de conhecimento que as populaçõesindígenas têm em relação às plantas e como elas podem atuar do ponto de vistada saúde e de cura inclusive. E eles [os indígenas] dominam oconhecimento de base dessas plantas. Mas, a gente ignora isso. Agora, quando amedicina vem e lança moda da fitoterapia, da homeopatia, nós ‘caímos dejoelho’, inclusive, de fazer campanha por esse tipo de tratamento em relação aotratamento alopático, de drogas. Porque a gente reconhece uma coisa que amedicina descobriu agora e não reconhece o que está neste país desde que ele épaís? Então, ainda bem que já começa esse questionamento, vindo da própriaacademia, ou seja, ela mesmo se autoproblematizando. Isso já é um avanço e euacho que essa discussão vai chegar também na imprensa.