CNN acusada de negligenciar informações na Guerra do Iraque

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Publicado quarta-feira, 16 de abril de 2003 as 11:19, por: cdb

A rede de televisão CNN ficou na defensiva depois que seu chefe de noticiários, Eason Jordan, admitiu ter ocultado informações sobre atrocidades cometidas pelo regime de Saddam Hussein, a fim de proteger as vidas de seus jornalistas e informantes no Iraque. As revelações de Jordan apareceram em uma coluna editorial do New York Times na semana passada e geraram fortes críticas de que a rede atenuou informações sobre o governo de Saddam Hussein, em troca de acesso e presença contínua em Bagdá.

Em sua coluna no Times, Jordan descreveu como durante uma dezena de viagens a Bagdá presenciou e tomou conhecimento de “coisas horríveis” sobre as quais não podia informar porque, se o fizesse, colocaria em perigo a vida de iraquianos, especialmente daqueles que trabalham para a CNN. Jordan mencionou o caso de um cinegrafista iraquiano da rede que foi detido pela polícia secreta e submetido a semanas de torturas com espancamentos e choques elétricos.

“A CNN esteve o tempo suficiente em Bagdá para saber que dizer ao mundo sobre a tortura de um de seus empregados teria quase certamente provocado a morte dele e colocado sua família e companheiros em grande perigo”, escreveu. O jornalista também descreveu o caso de um ajudante e Udai Hussein, filho de Saddam Hussein, de quem arrancaram os dentes frontais com tenazes por ter irritado seu chefe, e o de um funcionário da Chancelaria obrigado a enviar uma carta de felicitações ao presidente, depois da execução de seu irmão. “Também não pudemos transmitir nada do que essas pessoas nos disseram”, afirmou.

Em um editorial publicado ontem, o jornal The Washington Post questionou as revelações de Jordan e disse que o que ele admitiu é especialmente preocupante, considerando a percepção geral da CNN como a voz dos Estados Unidos. “Se a CNN não informou completamente o que sabia sobre o regime iraquiano e se a CNN manteve sua cobertura deliberadamente leve e inofensiva, isto ajudaria a explicar porque o regime não foi apresentado com todo realismo”, acrescentou.

Outros jornais – incluindo The New York Times e USA Today – também criticaram a rede de TV. Vários acusaram Jordan de negociar a verdade para obter permissão para que a empresa estivesse presente em Bagdá. Outros disseram que a rede poderia ter encontrado meios para informar o que sabia sem arriscar a vida de seus informantes.

Em um memorando interno dirigido ao pessoal da empresa, Jordan defendeu sua decisão de reter algumas das informações que obteve em suas viagens ao Iraque. “Não dar informação que pudesse provocar a morte de gente inocente era o correto e não um pecado jornalístico”, disse. “Simplesmente o que aconteceria é que logo que fossem publicadas essas informações, o regime detectaria e mataria as pessoas inocentes que as passaram”, alegou.

À frente das críticas a Jordan estiveram a principal concorrente da CNN, a rede Fox News, e o jornal New York Post, ambos controlados pelo magnata da imprensa Rupert Murdoch.