Cientistas descobrem fator sangüíneo que protege contra a Aids

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quarta-feira, 2 de outubro de 2002 as 22:44, por: cdb

Uma equipe em Nova York alega ter descoberto o misterioso fator sangüíneo que permite que alguns pacientes infectados pelo HIV se mantenham saudáveis.

O trabalho é importante porque pode conduzir à criação de novos tratamentos contra o HIV, mas alguns especialistas dizem que moléculas descobertas anteriormente já tinham sido identificadas como responsáveis por boa parte do efeito protetor. Outros insistem em que ainda não identificamos o fator.

A caça a esse fator misterioso começou há 16 anos e remonta a um estudo conduzido pela equipe de Jay Levy na Universidade da Califórnia, em San Francisco.

A equipe dele estava estudando soropositivos que não desenvolviam a Aids. Os profissionais participantes concluíram que um determinado tipo de célula imunológica nesses indivíduos -a célula CD8T- produz uma pequena proteína que os ajuda a combater o vírus. As pessoas que desenvolvem Aids não dispõem desse fator antiviral da célula CD8, conhecido como CAF.

Mas de que proteína estavam falando? Em 1995, Robert Gallo, hoje professor no Instituto de Biotecnologia da Universidade de Maryland, em Baltimore, anunciou que sua equipe havia desmascarado o CAF, pelo menos parcialmente. Ele concluiu que o fator consistia de três quemoquinas – pequenas proteínas que alteram o funcionamento das células imunológicas.

A teoria de Gallo recebeu apoio ainda mais forte quando se descobriu que as quemoquinas se combinam com os receptores de proteína que o HIV usa para invadir as células. Isso significa que nas pessoas que produzem as quemoquinas, o receptor pode estar ocupado, o que ajudaria a manter de fora o HIV.

Outras teorias

A explicação não satisfez Linqi Zhang e David Ho, do Centro Aaron Diamond de Pesquisa da Aids, em Nova York. Para começar, as quemoquinas só bloqueiam um tipo de HIV, conhecido como R5, que se combina ao receptor de quemoquina CCR5. Não bloqueiam outro tipo de HIV, chamado X4, que se combina com o receptor CXCR4. Acredita-se que o CAF bloqueie ambas as variantes.

Assim, com a participação de colegas da Ciphergen, uma empresa de biotecnologia da Califórnia, os pesquisadores começaram a estudar o CAF usando chips de proteína, uma tecnologia que separa e identifica as proteínas com grande precisão. Eles procuraram por proteínas produzidas exclusivamente pela célula CD8, em três pessoas soropositivas que não haviam desenvolvido a doença.

Encontraram um trio de pequenas proteínas que identificaram como alfa-defensina 1, 2 e 3. Versões purificadas dessas proteínas inibem tanto o HIV X4 quanto o HIV R5 nas células humanas, de acordo com o relatório de pesquisa que eles publicaram na revista “Science”.

Sabe-se que as alfa-defensinas agem como antibióticos destruindo as membranas da bactéria, mas não está claro de que maneira elas combatem o HIV.

Os pesquisadores concluíram que as alfa-defensinas respondiam por quase toda a atividade do CAF contra os vírus X4, e por porção substancial de sua atividade contra o R5, o que faz delas as melhores candidatas já encontradas para explicar o misterioso fator. “Acreditamos ter resolvido o quebra-cabeça do CAF”, diz Zhang. “Acho que os dados falam por si”.

Outros estudiosos estão menos convencidos. Gallo acredita que o CAF é na verdade uma mistura de proteínas que pode variar de pessoa a pessoa.]Mesmo assim, seu trabalho sugere que 90% da atividade contra o R5 vêm das quemoquinas. “Tecnicamente, é um estudo muito sólido, mas dizer que toda a atividade do CAF vem das alfa-defensinas é absurdo”, diz Gallo.

Para Levy, ambos os grupos estão errados. Ele acredita que nem as quemoquinas nem as alfa-defensinas sejam poderosas o bastante para responder pela atividade do CAF. Mas crê que a caçada tenha valor.

“É gratificante saber que as pessoas estão descobrindo toda espécie de fatores naturais antivírus, e que alguns deles podem conduzir à criação de uma nova espécie de terapia”.