CIA divulga supostos beneficiários de subornos de Saddam

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Publicado quarta-feira, 6 de outubro de 2004 as 21:39, por: cdb

A CIA divulgou na quarta-feira uma lista de empresas e pessoas de dezenas de países suspeitas de terem recebido “vales-petróleo” do regime de Saddam Hussein, que poderiam ser trocados por dinheiro.

A relação, compilada a partir de 13 listas secretas feitas pelo ex-vice-presidente e ex-ministro do Petróleo do Iraque, enumera contratos legítimos com empresas petrolíferas. Mas também é um verdadeiro quem é quem dos grupos e indivíduos cuja influência interessava para o governo do Iraque, à época submetido a sanções da Organização das Nações Unidas (ONU).

A lista é parte de um relatório sobre armas não-convencionais do Iraque, escrito por um assessor da CIA, Charles Duelfer, que no passado foi inspetor da ONU no Iraque. Duelfer não disse, porém, se alguém tentou verificar os nomes que constam na lista.

Entre os supostos destinatários dos “vale-petróleo” estão a presidente da Indonésia, Megawati Sukarnoputri, o ex-ministro francês do Interior Charles Pasqua, o ultranacionalista russo Vladimir Jirinovsky e seu Partido Liberal Democrático, o gabinete presidencial da Rússia, a chancelaria russa, o Partido Comunista da Ucrânia e o Partido Socialista da Ucrânia, o filho do ex-presidente libanês Emile Lahoud e a Frente de Libertação dos Povos da Palestina, entre muitos outros.

O único funcionário da ONU citado é Benon Sevan, diretor do programa humanitário para o Iraque, já acusado anteriormente de ter recebido dinheiro do regime de Saddam Hussein. Ele nega. Na lista, aparece como “senhor Sifan, funcionário da ONU”.

A ONU entregou seus documentos a Paul Volcker, ex-presidente do Fed (Banco Central dos EUA), para que sejam submetidos a análise independente.

– Não vamos comentar qualquer acusação específica contra o senhor Sevan ou outros – disse o porta-voz da ONU, Paul Eckhard – Isso está nas mãos de Paul Volcker. Estamos cooperando totalmente com ele. Benon Sevan está cooperando totalmente com ele, e vamos esperar a avaliação de Volcker.

Todos os nomes de empresas e indivíduos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, sejam eles suspeitos ou não de irregularidades, foram retirados da lista, que foi parcialmente publicada pela primeira vez em um jornal iraquiano depois do começo da guerra, em março de 2003.

O Iraque foi submetido a sanções comerciais da ONU por ter invadido o Kuweit, em 1990. Em 1996, começou a funcionar um programa que permitia ao Iraque vender petróleo e usar o dinheiro para a compra de alimentos e remédios, sob supervisão da ONU. Mas, desde 1990, o país vinha vendendo petróleo para a Jordânia e a Turquia, fora do esquema da ONU, e com a conivência norte-americana.

Acordos com governos vizinhos geraram mais de US$ 7,5 bilhões para o regime de Saddam entre o começo da década passada e o início da guerra, em 2003, segundo o relatório.

Além disso, o Iraque ganhou outros 2 bilhões de dólares em comissões e ágios ligados ao programa da ONU, 990 milhões de dólares em vendas de petróleo “à vista” ou por contrabando, e 230 milhões por outros esquemas, de acordo com o texto.

Empresas da Síria, da Jordânia, do Líbano, da Turquia, dos Emirados Árabes e do Iêmen ajudaram Saddam a adquirir itens que eram vetados, por meio de práticas comerciais escusas, de acordo com a CIA.

– Saddam pessoalmente aprovou e retirou todos os nomes de receptores dos vales. Ele fez todas as modificações na lista, acrescentando ou retirando nomes à vontade – afirmou o relatório.

As empresas de petróleo eram obrigadas a pagar ágio num valor que, no final de 2000, representava de 25 a 50 centavos de dólar por barril.

Mas a Rússia impediu os esforços da ONU para obrigar os compradores a não pagar esse ágio. A Grã-Bretanha e os Estados Unidos mais tarde forçaram a ONU a impor um tabelamento retroativo de preços, como forma de evitar o ágio.

Empresas de petróleo dos EUA adquiriram petróleo iraquiano com a ajuda de intermediários, e não diretamente de Bagdá. No começo de 2003, os EUA consumiam 67 % do petróleo iraquiano