China realiza 18º Congresso do Partido Comunista sob forte ataque da mídia internacional

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Publicado segunda-feira, 5 de novembro de 2012 as 12:36, por: cdb
PC Chinês
Na sede de uma das escolas de política do PC Chinês, aluno corre para a próxima aula

Um dos líderes do Partido Comunista Chinês (PC Chinês) que pouco aparece na mídia ocidental, Zhou Yongkang fez um duro discurso durante uma reunião preparatória para o 18º Congresso da legenda, no qual conclamou os chineses a aumentar o nível de segurança nas fronteiras e nas principais cidades do país durante os próximos dias, enquanto acontece a principal instância de decisão política da nação com o maior exército da Terra. Yongkang falou logo após a decisão de um comitê do Partido iniciar uma investigação sobre denúncias de corrupção que envolvem a família do primeiro-ministro, Wen Jiabao. A notícia foi publicada, inicialmente, no diário norte-americano The New York Times, e retirada da internet naquele país logo em seguida, após o governo considerar o artigo um ataque direto das forças reacionárias mundiais ao sistema socialista com características chinesas, em vigor desde a Revolução Comunista, em 1927.

Em meio à pior crise do capitalismo ocidental no último século, os delegados do PC Chinês chegam a Pequim de todas as partes do país e tomam assento na assembleia que tem poderes para mudar o presidente, o primeiro-ministro e demais cargos de mando no Executivo da segunda maior economia mundial. A China, em reuniões oficiais que antecedem o Congresso, reafirmou sua presença no campo marxista e tende a se manter na linha das reformas para fazer frente aos novos desafios, mas sem descuidar da segurança social, diante de ataques à soberania territorial, como no caso da contenda com os japoneses pelas Ilhas Senkaku/Diaoyu, e com as forças da direita, visto na denúncia, entre outros, do NYT. Neste caso, o próprio Wen Jiabao é o autor do pedido para que sua família seja sumariamente investigada.

A família do primeiro-ministro, por sua vez, garantiu ser “falsa” a reportagem publicada no diário nova-iorquino, a qual levanta suspeita de que familiares do líder chinês reuniram a fortuna de US$ 2,7 bilhões nas duas últimas décadas. O advogado da família Wen, Wang Wiedong, em um comunicado publicado por um jornal de Hong Kong, neste domingo, rechaça a reportagem do New York Times, a qual diz que mãe, esposa e filho do premiê enriqueceram após o político assumir o cargo de primeiro-ministro,  em 2003.

A reportagem diz que uma lista de registros feita entre 1992 e 2012 mostrou que os parentes de Wen acumularam ações em bancos, joalherias, complexos turísticos em balneários, empresas de telecomunicações e projetos de infraestrutura, por vezes usando entidades offshore. Wang disse à agência norte-americana de notícias Dow Jones que a família ainda estuda a reportagem, publicada na sexta-feira, e que considera como responderá. O mais provável será o ingresso, em uma corte internacional, contra o denunciante e o diário que abrigou o artigo.

– Como não ficaram ricos ao longo desse período, podem ficar agora, com o valor que será dado a esta causa – confidenciou um dos advogados da equipe de Wang, que preferiu manter o anonimato.

Questionamento

Os fantasmas que rondam o 18º Congresso do PC Chinês tendem a ser exorcizados com a resposta do regime chinês ao público internacional, em relação às denúncias contra Wen Jiabao ou de uma excessiva concentração de poderes em uma espécie de casta que teria se formado na direção do país, à qual pertenceriam os filhos dos políticos que construíram a Revolução Chinesa. Os 2,2 mil delegados, reunidos no 18º Congresso, segundo posições extraídas das reuniões preparatórias que o antecederam, tendem a dar uma resposta clara aos críticos do comunismo, sem perder o foco na economia internacional, de forma a manter os atuais níveis de crescimento do país e assegurar o domínio do território continental da nação, em constante desafio por parte dos vizinhos.

A melhoria na distribuição de renda é outro desafio a ser enfrentado no Congresso. Segundo estudo realizado por agências do Fundo Monetário Internacional (FMI), organismo dirigido pelas nações ocidentais atualmente no epicentro da crise capitalista, a desigualdade cresceu mais velozmente na China do que em qualquer outro país nos últimos 20 anos. Uma recente Pesquisa Financeira Domiciliar concluiu que os 10% dos domicílios mais ricos do país detêm 57% da renda e 85% de toda a riqueza – uma concentração maior do que a brasileira, uma das mais altas do mundo, atualmente em 44,5%. Deve-se levar em conta que Hong Kong, o então rico e populoso protetorado britânico, foi recentemente anexado aos números chineses, o que ampliou desequilíbrio nas estatísticas.

Por mais que responda às críticas do socialismo com características chinesas, como se autodescreve o regime de Pequim, multiplicam-se os meios de comunicação ligados ao capitalismo norte-americano e europeu, ávidos por desacreditar a opção dos chineses pela bandeira da foice e do martelo. Agências de notícias e canais de
TV montados nos Estados Unidos tentam transmitir diretamente para o público chinês escândalos como o de Gu Kailai, a esposa de Bo Xilai, ex-integrante do escalão dentro do PC Chinês, indiciada por homicídio. O assunto foi tratado com desdém pela agência chinesa de notícias Xinhua, que transmite as notícias avalizadas por Pequim, mas ganhou as manchetes da mídia conservadora ao redor do mundo.

Segundo breve nota da Xinhua, a Procuradoria Popular de Hefei, na província de Anhui, instaurou uma ação judicial contra Gu Kailai no Tribunal Popular Intermediário de Hefei, em 26 de julho, sem maiores detalhes. A nota diz que os “fatos do crime são claros” e que as provas contra os dois são “confiáveis e abundantes”. A agência inglesa de notícias Reuters acompanhou o julgamento realizado em agosto último. Gu Kailai e Zhang Xiaojun, um empregado da família do casal, foram levados à corte e condenados pelo assassinato do empresário e consultor britânico Neil Heywood.

Nesta segunda-feira, os dois advogados de Bo Xilai, marido de Gu, disseram, em entrevista concedida a jornalistas internacionais, que não têm a menor ideia de quando o cliente deles será julgado. Bo estaria numa espécie de “limbo” jurídico apesar das investigações criminais em relação à sua suposta participação em um esquema criminoso estarem em andamento. Bo Xilai ascendeu aos altos escalões do PC Chinês com o apoio de Jiang Zemin, o ex-presidente do país, cujas políticas ele aplicou com sucesso. Segundo a versão de analistas ligados ao capitalismo internacional, Bo Xilai chegou a uma posição central da liderança pela força de uma facção liderada por Jiang Zemin, com o objetivo de assegurar o legado do ex-presidente chinês.

Segundo o jornal chinês The Epoch Times, ligado a grupos ultraconservadores nos EUA e na Europa, um de projetos de Bo “era a continuidade da perseguição contra os praticantes do Falun Gong – uma campanha violenta (contra dissidentes do regime) que Jiang Zemin começou em 1999. Bo Xilai, juntamente com Zhou Yongkang, o chefe da segurança pública chinesa (também leal a Jiang Zemin), teriam conspirado para impedir que Xi Jinping, o atual vice-presidente, viesse a ocupar a presidência da China, a partir do próximo ano. A perspectiva dos conspiradores era a de que, com o impedimento de Xi Jinping, o posto de Presidente da China viesse a ser ocupado por Bo Xilai”, afirmou o veículo de comunicação, editado em 18 idiomas, com sede em Nova York.

Os setores de comunicação social do governo chinês sequer tomaram conhecimento das afirmativas. O fato é que a alternância de poder a ser consolidada no 18° Congresso do Partido Comunista Chinês, em curso, mesmo diante desses desafios não deverá mostrar o menor abalo diante dos ataques promovidos por setores patrocinados por interesses contrários ao desenvolvimento do comunismo como força econômica. Conhece-se, de antemão, o substituto de Hu Jintao, o atual vice-presidente Xi Jinping, e o de Wen Jiabao, o vice-primeiro-ministro, Li Keqiang. Nessa ocasião, o presidente e primeiro-ministro serão substituídos no comando do partido e, mais tarde, também em seus respectivos cargos políticos. Um total de sete dos nove membros do alto escalão devem ser trocados. A mudança na cúpula partidária na China é esperada com expectativa pelo Ocidente.

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