Chile recupera mostra que Allende inauguraria no dia do golpe

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado segunda-feira, 20 de junho de 2011 as 13:32, por: cdb

Na manhã de 11 de setembro de 1973, o então presidente do Chile Salvador Allende inauguraria na sede da UTE (Universidade Técnica do Estado), em Santiago, uma mostra composta por 18 painéis – produzidos por nove artistas locais – que alertavam para o perigo de uma guerra civil e da instalação de um regime fascista no Chile.Como numa profecia autocumprida, a mostra nunca foi inaugurada. Neste mesmo dia, o general Augusto Pinochet liderou um dos mais sangrentos golpes de Estado da América Latina, que terminou com a morte de Allende e de outros milhares de apoiadores do governo da UP (Unidade Popular).

Hoje, 38 anos depois, o Museu da Memória e dos Direitos Humanos está apresentando a emblemática mostra suspensa pelo golpe de Estado de 11 de setembro. Graças a um verdadeiro trabalho de arqueologia artística, foi possível localizar as 18 obras, confeccionadas em painéis de 2 metros de largura por 1 metro de altura.

Na remotagem, os trabalhos estão acompanhados por diversas fotos e vídeos, que ajudam a contextualizar o momento político vivido pelo Chile e pela América Latina nos anos 1960 e 1970, quando a região era palco de uma disputa letal pela hegemonia entre os modelos inspirados pelo socialismo e o comunismo e os governos alinhados aos EUA, no auge da Guerra Fria.

“Há um momento propício para a retomada destes assuntos e para a inauguração desta mostra, que, na verdade, nunca chegou a ser inaugurada”, disse ao Opera Mundi o diretor do Museu da Memória, Ricardo Brodsky.

“Na época, havia 100 cópias de cada um destes 18 painéis e o que se pretendia, naquele momento, era realizar mostras itinerantes e simultâneas em todas as regiões do Chile, mas isso nunca aconteceu. Hoje, estamos trabalhando não apenas para que estes painéis possam percorrer todo o país, mas para que também passem por outros países”, explicou Brodsky, revelando que estuda formas de levar a mostra ao Brasil.

A linguagem usada nos painéis mostra um padrão estético fortemente associado à arte visual do período, com contrastes saturados, técnicas de colagem e associação entre imagens e texto. Originalmente, os painés foram confeccionados de forma que pudessem ser facilmente reproduzidos por sindicatos, associações e escolas que quisessem realizar mostras semelhantes.

“O emblemático de tudo isso é que a mostra e a interrupção dela, em 1973, é um registro do momento preciso de inflexão da época”, afirmou o curador da mostra, Mario Navarro, reforçando a metalinguagem involuntária que o golpe de Estado acabou produzindo neste trabalho artístico.

O Museu da Memória e dos Direitos Humanos produziu um vídeo, em espanhol, com os artistas envolvidos no trabalho, batizado “Pela Vida … Sempre”. Hoje, idosos, eles explicam, entre lágrimas e lembranças dos companheiros mortos e desaparecidos, como são as técnicas artesanais de produção dos cartazes. O Vermelho reproduz abaixo:

Fonte: Opera Mundi