É chegada a hora de avaliar riscos e definir rumos

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Publicado segunda-feira, 13 de novembro de 2017 as 15:01, por: cdb

Basta acompanhar os rumos das pesquisas de opinião. Reparar no que acontece nos partidos que se posicionaram ao lado do golpe. Perceber a força dos movimentos sociais que começam a se organizar.

 
Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro

O sistema parece seguro o suficiente para liberar as eleições do ano que vem. O risco aos conservadores de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ser candidato fica mais distante. E o sentimento de ódio, amamentado pela imprensa conservadora, cede aos poucos. A infecção perdura, mas o sintoma esmaece, na medida em que as anteparas jurídicas crescem, para deter o líder petista. A essa altura, o tríplex, no Guarujá, é dele; o sítio, no interior paulista, é dele; o barquinho de lata é dele e ao inferno com as provas. Isso não interessa mais aos agentes da ultradireita.

O juiz federal Sérgio Moro aceitou nesta segunda-feira mais uma denúncia da força-tarefa da Operacão Lava Jato contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda tem tempo de mudar os rumos de sua candidatura

Importa a eles é que, uma vez condenado no IV Tribunal Regional Federal (TRF), Lula terá o processo destinado ao Supremo Tribunal Federal (STF). A mesma Corte que conduziu aquela votação, em Maio de 2016, no Senado, e lacrou o golpe.

É. Esse aí mesmo, que não julga o pedido de anulação da pantomina e devolve o mandato à presidenta cassada Dilma Rousseff. Porque, para os agentes da iniquidade, nem isso mais vem ao caso.

Dilma foi enxotada, banida, jogada para debaixo do tapete da História como caso raro de um governante que consegue perder o mandato, com a caneta na mão. Prova é que não importa o tinteiro transbordar com 54 milhões de votos, se a mão que sustenta a pena não é firme o suficiente para fazê-la deslizar sobre o papel e transformar a realidade.

Perigo vermelho

É preciso, por exemplo, não tremer na hora de exonerar o chefe da segurança; após ser achincalhada, pouco antes da queda, em uma visita à Universidade de Stanford, nos EUA. Um idiota, nos corredores do evento, ladrou um: “Fora, Dilma!”. Estava infiltrado a apenas alguns metros da presidenta. Com um artefato bélico qualquer, teria-lhe acertado, facilmente. Os agentes do serviço secreto, acuados, limitaram-se a ganir umas interjeições ao agressor. Quase lhe aplicaram alguns tapinhas na mão.

Seria necessário à mandatária derrocada, ainda, coragem suficiente para impedir que mais de R$ 6 bilhões em dinheiro suado dos impostos escoassem para os cofres das Organizações Globo. A mesma que não parou um dia sequer de tramar o golpe de Estado, ao lado dos detratores da democracia. Há décadas. À luz do dia. Na tela da TV.

Ao vivo, ainda levaram a coitada para bater uma omeleta e servi-la a Ana Maria Braga.

Inútil subestimar a direita e seus integrantes, desde os mais ridículos e espalhafatosos até os piores algozes dos direitos dos trabalhadores. Esses últimos não passam de uma dúzia. Atuam, no entanto, de forma extremamente fria, eficaz e discreta. Têm bilhões de dólares disponíveis para ganhar outros bilhões, que ninguém se engane. E aplicam cada centavo nas salvaguardas da sagrada família, propriedade e tradições, as mais retrógradas. Tentam não deixar sequer uma fresta para o perigo vermelho se infiltrar. Têm pesadelos à noite, por conta disso. Os atuais grileiros, no Palácio do Planalto, estão a serviço dessa gente.

Forças Armadas

Removeram a democracia brasileira — é certo que por uma fraqueza inominável da distinta — sem maiores distúrbios. Uma passeata aqui, outra ali. Nada que cavalaria, bala de borracha e spray de pimenta não tenham resolvido. Pagaram a bom soldo alguns agitadores de redes sociais. Insuflaram a mídia com aquela dinheirama toda. Sempre com o auxílio luxuoso de uma Câmara, na época, presidida por Eduardo Cunha (PMDB-RJ); hoje supostamente detido em alguma quebrada de Curitiba. O resultado aí está. Os paneleiros sumiram, apesar do show de horrores da roubalheira institucionalizada. A espuma se dissipou.

A briosa esquerda brasileira, por sua vez, acostumada ao estilo ‘gente boa’ do velho ‘Lulinha paz e amor’, levou um tranco. “Foi lascada”, diria o heróico ex-deputado Carlos Marighella (PCB-BA). Até agora não sabe ao certo o que a atropelou. Permanece, toda quebrada, no Centro de Tratamento Intensivo (CTI). Respira por aparelhos.

O que se vê, esse tempo todo depois do golpe, é um jogral lamentável de desculpas esfarrapadas. A realidade é que as verdadeiras fontes de poder, no país, aplicaram nos comunistas, socialistas, partisans e simpatizantes uma ‘chave de galão’. O termo é, propositalmente, militar. Significa a imposição da hierarquia, nas Forças Armadas, dos superiores sobre os comandados. Quem tentar escapar, morre.

Trevas

Por mais que esperneiem, as forças progressistas estão enredadas por cordões invisíveis; esticados a partir dos tribunais, quartéis, sindicatos patronais; bancas de advogados, dos grandes bancos. E, claro, nas redações dos meios conservadores de comunicação. Nem é preciso dar nomes aos bois. Todos os conhecem. Nada mudou.

O espasmo iniciado em 2002, com a eleição de um torneiro mecânico para a Presidência da República, durou meros 15 anos. Um piscar de olhos, do ponto de vista histórico. Somado os três lustros petistas aos mandatos do presidente Getúlio Vargas e ao esplendor da comunhão entre o arquiteto Carlos Niemeyer e o mineiro JK; o Brasil de 500 anos viveu nem 10% desse tempo um período iluminado; em meio a mais de quatro séculos de trevas.

É triste constatar que, hoje, são vãs as promessas fáceis dos candidatos à possível eleição do ano que vem. Desfazer todo o emaranhado jurídico construído para a venda do patrimônio público é tarefa para os próximos 50 anos. A Vale e a Companhia Siderúrgica Nacional estão aí para não deixar ninguém mentir. Constituinte, livre e soberana; anulação da venda de empresas estatais; fim da ‘reforma trabalhista’, em curso há algumas horas; prisão de Michel Temer e seus asseclas. Tudo isso seria perfeito, não fosse o rosário de impossibilidades rezado nesses parágrafos anteriores.

O troco

Mas não desanime, ainda, caríssimo leitor. A resistência segue a máxima do britânico Isaac Newton, na qual “à toda ação corresponde uma reação de mesma intensidade, mesma direção e em sentido contrário”. O golpe ocorreu há quase dois ano. É certo que o estrago produzido, ao longo desse curto período de tempo, torna-se gigantesco.

Mais ainda se conseguirem aprovar qualquer coisa dessa famigerada reforma da Previdência. E levar a cabo a privatização total da Eletrobras e da Petrobras. Já doaram grande parte destas duas gigantes, mas falta pouco para que o resto seja torrado em mais um leilão, na Bolsa de Valores.

Porém, nem tudo está perdido. De volta à máxima de Newton, se a ação partiu de alguns milhares de endinheirados, o troco será devolvido por milhões de brasileiros. Gente simples, com pouca ou nenhuma prata nos bolsos; mas com uma disposição de luta capaz de doar a própria vida no processo de transformação do sistema, em curso, em uma pátria livre e soberana. Os brasileiros são heróis.

Ideais

Ainda que Lula pareça não poder seguir adiante, na linha de frente do bom combate que se avizinha, não faltarão brasileiros capazes de seguir até mais longe do que ele chegou. Nunca foi um questão de nome, embora o desse pernambucano arretado seja fácil de guardar. Trata-se de um processo histórico, barrado momentaneamente por uma quadrilha que, em seus ardis, mancomunada com poderosos empresários, juizes e parlamentares, deteve a marcha do Brasil na direção da justiça social; da igualdade cidadã e do compromisso com os mais pobres.

Basta acompanhar o rumo das pesquisas de opinião. Reparar no que acontece aos partidos que se posicionaram ao lado do golpe. O PSDB do senador Aécio Neves (MG), por sinal, esfarinha-se. É necessário perceber a força dos movimentos sociais que começam a se organizar; nas jornadas da resistência contra a minoria que ora domina esta sociedade. O vagalhão se forma no horizonte.

A hora é de avaliar o risco de se alienar na crença de que possa existir algum nível de diálogo com as forças que patrocinam o sequestro da democracia brasileira. Não há. Imaginar o contrário será, mais uma vez, pura ilusão. É chegado o momento de definir rumos para a retomada desta trilha, na direção daquele Brasil que valoriza cada um dos seus filhos. E seguir, ombro a ombro, com os homens e mulheres que carregam ideais de Justiça e igualdade. Estes, que vieram conosco até aqui, sem vacilar.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do jornal Correio do Brasil.